Por que amamos Scarlett?

Quanto mais discretamente bonita ela tenta ser, mais espetacularmente bonita ela é. Queria que ela só fizesse papéis de garota comum. Queria que ela deixasse de ser sexy

Não sei onde estava quando as Torres Gêmeas caíram, nem quando Ayrton Senna morreu, mas sei onde estava a primeira vez que vi Scarlett Johansson. Imagino, sem ter estudado o assunto, que esse é um fato comum a todos os homens vivos hoje; e que desde então todos vivemos numa espécie de transe perpétuo pensando nela, enquanto repetimos mecanicamente os gestos do dia a dia: operando pessoas, mandando matar espiões chechenos, dirigindo Avatar.

Vamos ignorar aquele filme que a Wikipédia em latim chama de Pacificatur Equorum, de 1998, onde ela já aparece toda bonitinha, com seu nariz achatado pré-operação. Ela era criança demais para que se prestasse atenção nela, ou pelo menos o tipo de atenção de que estou falando, de modo que esse não conta. Mas pense nisso: 1998! Algumas pessoas estranham muito que tenham passado por uma fase da vida sem internet. Eu acho estranho pensar numa fase da minha vida em que nunca tinha ouvido falar de Scarlett Johansson. Ela já vivia, era bonitinha, andava por aí – e estava crescendo todos os dias para se tornar uma das mulheres mais bonitas de todos os tempos. Mas não tínhamos ainda ouvido falar dela. Como não pensar nas mulheres lindas das quais só vamos ouvir falar em cinco, ou dez, ou 20 anos, já nascidas, andando por aí – seus rostos, que um dia vão significar tanto para nós quando ampliados na tela do cinema, assumindo suas formas maduras pouco a pouco?

A primeira vez que a vi de fato foi em O Homem que Não Estava Lá, o filme dos irmãos Cohen, de 2001, em que Billy Bob Thorton é um barbeiro lacônico que acaba matando o amante da mulher. No filme, Scarlett faz o papel de Birdy Abundas (sim, eu chequei), a filha do vizinho. Billy Bob Thorton ouve Birdy tocar piano e acha que ela é uma gênia. Como reconhecimento pelo apoio dele, Birdy oferece sexo oral enquanto ele dirige, o que o deixa chocadíssimo, pouco antes de bater o carro. Acho que devo ter visto essa cena, que dura talvez um minuto, tendo piscado só duas vezes. Quando o filme acabou, fiquei para ver o nome.

“Talvez as pessoas achem que a minha aparência é sexy”, Scarlett disse numa entrevista, “porque eu me sinto sexy.” É um chavão comum entre as mulheres bonitas que querem sentir que a beleza delas não é um mero acidente genético, mas algo do qual elas têm mérito, uma beleza interior. É especialmente errado no caso de Scarlett. Veja os filmes em que ela parece estar se sentindo sexy o tempo todo. Os filmes em que ela faz papel de bombshell, femme fatale. A Ilha, Dália Negra, O Espírito etc. São também os filmes em que ela parece mais constrangida e sem vida. Sexy, sim, se você congelar a imagem quando ela aparece na tela. Sem dúvida. Mas com as imagens em movimento ela deixa de ser sexy, porque se tornou desinteressante. (Alguns desses filmes são bons, como Vicky Cristina Barcelona. Mas mesmo nele a atenção de qualquer pessoa com um olho para mulheres é desviada para a muito menos espetacular Rebecca Hall, que dominou as resenhas dos jornais e a conversa dos meus amigos.)

Por comparação, os três filmes em que ela aparece realmente interessante são aqueles em que ela parece ter outras coisas para se preocupar além de se sentir sexy. Me refiro à Grande Trilogia de Scarlett Johansson (até agora): Ghost World – Aprendendo a Viver, Encontros e Desencontros e Moça com Brinco de Pérola. Nos três ela faz o papel de uma garota normal, bonita, um pouco mais inteligente que as pessoas à volta dela. Nos três filmes, especialmente nos últimos dois, era impossível desviar os olhos dela. Quanto mais discretamente bonita ela tenta ser, mais espetacularmente bonita ela é. Queria que ela só fizesse papéis de garota comum. Queria que ela deixasse de se sentir sexy.

Vida comum

A Wikipédia, e fofocas aqui e ali, não nos diz muito sobre como ela deve ser como pessoa. Aquela confissão de fazer dois testes de aids por ano, o boato sobre ela e Benício del Toro num elevador (não sabia? Ixi, nem queira saber) e a notícia do barman que conseguiu o número dela não parecem augurar nada de bom para a nossa possessividade a distância. O pouco que se sabe dá uma impressão de que ela pode ser chatinha: escrevendo artigos um pouco óbvios demais contra a “ditadura da magreza”, fazendo campanha por todas as causas políticas bacaninhas que me fazem revirar os olhos. Quem a viu em A Ilha– um dos piores filmes de todos os tempos, com a boca aberta em não-entendimento perpétuo (sua linda testinha sempre franzida, a cabeça loira inclinada como um cocker spaniel confuso, mas um cocker spaniel sexy) – pode achar que ela é assim na vida real, um pouco burrinha. Talvez.

Mesmo assim, os melhores papéis de Scarlett são aqueles em que acreditamos que ela é inteligente, e nos quais interpretamos o olhar dela para as pessoas a sua volta como o de leve zombaria. Ela teria sido uma aluna discretamente sexy no filme Garotos Incríveis, se tivesse sido escalada no lugar de Katie Holmes. Espero que no futuro ela escolha papéis assim, e não esses em que fuma piteiras e usa véus. Mas cheguei à conclusão de que o melhor de Scarlett Johansson não está nos filmes, onde raramente ela parece à vontade. Está em fotos, e num único vídeo que ela fez para uma música de Bob Dylan chamada When the Deal Goes Down: porque nessas fotos, e nesse vídeo, subitamente ocorre a você que ela é o sentido da vida. Em fotos de paparazzi ela parece pálida, baixinha, até mesmo minúscula, malvestida na sua bermuda de Britney Spearsindo-às-compras, segurando sua garrafinha de água mineral.

Procurando na sua memória você já abraçou mulheres assim, igualmente baixinhas, pálidas e malvestidas. Certamente não é algo impossivelmente distante da sua experiência. Nada divino, nada olímpico. Até, claro, o momento em que você vê fotos dela na estreia de um filme, ou num editorial de moda, com aquele rosto, aquela boca, aqueles seios. A carnalidade de Scarlett Johansson, acentuada até pelas pequenas imperfeições na pele do rosto. Você quer senti-la nas mãos. Ela não é etérea – ela não é Audrey Hepburn. Não é, também, uma mulher fatal, porque parece errado chamá-la de mulher. É uma garota. Extraordinariamente sexy, mas uma garota.

A MUSA DE HOMEM DE FERRO 2

SCARLETT É UMA VIÚVA NEGRA POR ACASO NO FILME QUE ESTREIA ESTE MÊS. MAS NÃO, ELA NÃO MATA SEU PARCEIRO DEPOIS DA CÓPULA – O QUE SERIA UMA MORTE FELIZ, CONVENHAMOS

Fatal em todos os sentidos. Viúva Negra é Natasha Romanova, uma espiã russa com extenso treinamento militar e em artes marciais. Ruiva e sedutora, ela fez a festa entre os machos do universo Marvel: pegou o Gavião Arqueiro, namorou o Demolidor por um bom tempo, deixou o Homem-Aranha de quatro e até foi pedida em casamento pelo Homem de Ferro, que fora seu inimigo em outras épocas. No cinema, não poderia haver uma atriz mais perfeita para o papel que Scarlett Johansson, certo? Errado. Por pouco Scarlett não fica de fora de Homem de Ferro 2. Ela entrou para substituir a deliciosa Emily Blunt, primeira opção para encarnar Viúva Negra, a espiã russa que trabalha para a organização SHIELD. Como estava escalada para Viagens de Gulliver, filme que deve estrear ainda este ano, Emily recusou o convite. O diretor Jon Fraveau ainda pensou em Jessica Biel, Gemma Arterton, Natalie Portman, Jessica Alba e Angelina Jolie antes de escolher Scarlett. Foi por um triz.
(Rodolfo Viana)