As exibidas da webcam

Entre elas pode haver uma colega da sua classe, uma vizinha ou até, veja bem, a sua esposa. São mulheres que levam vidas absolutamente normais, mas que se divertem – e ganham um bom dinheiro – tirando a roupa diante do computador. Conheça suas histórias

A gaúcha Vivian, de 18 anos, mora com os pais e ainda não acabou o ensino médio, mas já exerce hoje a profissão que quer ter pelos próximos tempos. Todos os dias, após frequentar a escola, almoçar com a família, ir à academia, voltar e tirar um cochilo, ela começa a trabalhar, dentro do próprio quarto, diante de uma webcam. Vivian é uma stripper virtual, ou cam girl, mas ninguém fora das câmeras sabe disso. Nem os pais, nem a melhor amiga, nem o amigo gay.

Para a VIP, Vivian abriu – sem cobrar – sua câmera, a mesma que usa para se exibir para clientes todos os dias das 16h à meia-noite. Com a vestimenta típica para os shows – um baby-doll e uma lingerie provocante sobre os fartos peitos (um dos atributos da loira preferidos pelos homens que costumam pagar para vê-la tirar a roupa e se masturbar, entre outras coisas) e uma máscara cor-de-rosa sobre os olhos –, sentada sobre a cama coberta por um lençol de oncinha bem esticado, com uma parede azul-bebê decorada com adesivos de gatinhos ao fundo, ela contou um pouco sobre suas duas vidas, a virtual e a real. E também mostrou os brinquedos que usa para provocar seus clientes e listou os fetiches mais pedidos por eles (veja entrevista ao lado).

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Vivian Stripper
Idade: 18 anos

De que tipo de cliente você mais gosta?
Gosto dos mais maduros, calmos, que não pedem tudo rápido e ao mesmo tempo.

E o que eles pedem?
Gostam de experimentar de tudo. Fui aprendendo os fetiches com eles. Tem caras que têm tesão por pés, e para esses faço o show podolatria. Outros querem só se exibir e fico olhando. Há quem adore a chuva dourada. E já me pediram o ginecológico, que eu nem sabia que existia. Fui comprar um daqueles instrumentos de exame ginecológico para o cliente ver tudo lá dentro.

E tem algo que você não faz?
Não faço a chuva marrom, acho nojento. Mas muitos querem.

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Existem muitas, mas muitas garotas com a mesma profissão de Vivian espalhadas pelo mundo. Garotas de todo o tipo, mais ou menos gostosas, escondidas atrás de máscaras ou até mostrando o rosto, dispostas a satisfazer dos mais simples desejos, como ver um bumbum balançando, aos mais excêntricos fetiches, como a chuva dourada, que significa banho de xixi. Fazem shows em troca de pagamento, normalmente por minuto, mas não estão ali só pelo dinheiro. Conversei com cinco cam girls brasileiras e foi fácil descobrir que elas também se divertem e sentem tesão atrás das câmeras.

Vivian Stripper é um exemplo clássico de menina que sempre gostou de se exibir. Já frequentava salas de bate- papo de sexo virtual quando descobriu que poderia ga­­­­nhar dinheiro com isso. Começou adicionando caras no MSN, depois cadastrou uma conta no Skype e, por fim, criou o seu próprio site de shows. Deu certo e não pensa em prestar vestibular. “Se fizer faculdade, não vou ga­­­­­­­nhar mais do que já ganho (R$ 5 mil por mês, em média). Quero fazer isso enquanto o meu corpo permitir. Com o dinheiro que eu guardar, depois eu abro um negócio, provavelmente uma academia”, planeja.

Vivian é uma empreendedora. Ela criou seu ne­­­­­gócio e o gerencia sozinha. Tira fotos para o site, pu­­­­­blica vídeos, divulga o trabalho pelo Facebook e, o que é mais complicado, administra o sistema de pagamento. A regra, nesse quesito, é clara: a stripper só abre a câmera quando o dinheiro entra na conta. Para viabilizar as transações, Vivian fez um convênio com um site especializado em pagamento virtual bastante usado em comércio eletrônico. É dessa mesma forma que ela cobra pelas lingeries que usa nos vídeos, muito cobiçadas pelos clientes. Esse comércio, aliás, é o que ela diz para os pais que faz enquanto está trancada no quarto, omitindo, no en­­­­­­tanto, o fato de que vende as próprias calcinhas.

O vice-presidente da Associação Brasileira das Em­­­­­presas do Mercado Erótico (Abeme), Evaldo Shiroma, diz que, ao contrário de Vivian, a maioria das cam girls opta por se cadastrar em portais de strippers, como o Camerahot, o Lovecam, o LiveJasmin e o Cam4. Há até agências que identificam talentos e dão um empurrão na carreira de stripper virtual.

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Lillyrush
Idade: 28 anos

Você gosta mais de fazer shows públicos ou privados?
Sinceramente, eu prefiro os abertos. É muito divertido, tem gente do mundo inteiro, uma bagunça. Eu adoro!

E você consegue gozar nos shows?
Nem sempre. Mas, quando digo que vou gozar, gozo mesmo. Quando não estou com vontade, não digo nada.

E os clientes não ficam bravos?
Não! Eu não crio expectativas falsas e eles entendem.

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A empolgação com a atividade acaba sendo a mesma. A carioca Lillyrush, de 28 anos, moradora de Florianópolis, embora tenha uma outra profissão, há um ano não abre mão de passar de quatro a cinco horas por dia com seus clientes na webcam. Para Lilly, sentir-se desejada faz bem e com isso ela se solta mais até com o marido. O sexo em geral flui melhor.

Conversei também com uma jovem de 20 anos, brasileira, mas que só fala inglês pela câmera e não conta para os clientes onde vive – e por isso não quis se identificar para a reportagem nem mesmo com seu nome profissional. Ela acha mais seguro trabalhar para o portal Cam4, porque não precisa informar a sua própria conta e nenhum dado pessoal para os clientes. O site, que tem sede no Canadá mas é traduzido para 42 idiomas e reúne performers e voyeurs do mundo inteiro, funciona ainda como um canal de divulgação para as moças, com câmeras que ficam abertas 24 horas por dia.

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“Os europeus e americanos são muito mais maduros, respeitam as garotas. Os homens latinos são muito ma­­­­­chistas, eles xingam as strippers”, diz a menina. Ela prefere não fazer shows para brasileiros e facilmente encontra clientes gringos pelo Cam4, o segundo maior de webcams adultas com mais de 10 milhões de membros cadastrados e 6 milhões de visitantes por dia – só no Brasil são 10 milhões por mês. Outra possibilidade do portal, além dos shows privados, são as apresentações públicas. Funciona assim: voyeurs compram fichas para gastar com strip­­­­pers, e elas marcam shows ao vivo que podem ser assistidos de graça. Enquanto sensualizam para a câ­­­­­­­ma­­­­­­­­ra, as performers lançam metas para o público, que interage com elas por chat ou áudio. Então as moças pedem, por exemplo, 200 fichas para tirar o sutiã, mais 200 para se masturbar, e por aí vai. A meta mais cobiçada pelos voyeurs é o squirt, o orgasmo ao vivo.

“Faço muito mais shows públicos, é mais divertido, a gente dá risada”, conta a cam girl que faz mistério sobre sua origem. Ela garante ter tido seu primeiro orgasmo da vida durante um show e lembra que, numa apresentação boa, já chegou a ganhar 5 mil fichas. Por ficha as strip­­­­pers recebem 10 centavos de dólar. Os voyeurs pagam mais que isso, dependendo do pacote escolhido.

Andreia Prietro, diretora regional para Brasil e Portugal do Cam4, diz que o site é totalmente aberto e só exige que os participantes sejam maiores de idade. “Qualquer pessoa, homem ou mulher, pode se exibir no site, mas fica mais ou menos famoso dependendo do empenho e da performance. Para Evaldo Shiroma, da Abeme, muitas prostitutas aproveitam o fluxo de portais como esses e realizam shows pela web para divulgar seus programas e marcar encontros. Andreia, porém, explica que no Cam4 a maior parte dos usuários é amadora e não ultrapassa a barreira do virtual. “Tem pessoas que en­­­­­tram bastante e fazem show todo dia. Mas tem gente que faz mais porque gosta, sem se preocupar tanto com dinheiro”, explica.

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Noiva linda
Idade: 20 anos

Como são os seus shows?
Depende da demanda. Tem épocas que compro fantasias e brinquedos, tem outras que faço um suspense para manter o interesse, como dizer que vai chegar alguém a qualquer momento.

E como você consegue manter o seu interesse?
Quando entro no clima, desligo tudo, baixo a tela, começo a pensar naquele momento e nem consigo ler tudo que falam no chat.

E tem algo que pode atrapalhar o momento?
Quando um cara me paga para conversar em vez de olhar, às vezes me perco um pouco. Gosto de me exibir. Mas o pior são os caras que entram para xingar, zoar.

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É o caso da Noiva Linda, de 20 anos, que costuma fazer shows de duas a três horas por dia e ganha em torno de R$ 1 200 por mês. “Gosto de me exibir, o dinheiro é só uma consequência”, conta. Quando começou, há mais de um ano, ela namorava um cara que costumava frequentar salas de chat de adultos, gostava de assistir a strippers e chegou incentivá-la a fazer shows também. Ela entrou, mas ele acabou ficando com ciúme. O namoro terminou, mas a carreira de cam girl da Noiva Linda, não.

Ela não está inventando quando diz aos clientes que é comprometida. Há quatro meses, tem um novo namorado, que conheceu no Cam4. Ele também faz shows virtuais. Os dois se aproximaram para conversar sobre o trabalho e acabou rolando. Eles se ajudam, mas evitam assistir às performances um do outro para não criar um “climão”.

Com medo de ser reconhecida, Noiva Linda costuma trocar de personagem de tempos em tempos. “Quando começo a ficar mais famosa, eu apago tudo o que tinha a ver com uma personagem e crio outra. Já vi numa transmissão um cara que falou tudo da menina: nome, endereço, telefone. Eu não quero passar por isso.”

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Ludmilla
Idade: 25 anos

Quanto você cobra pelos seus shows?
Depende do tempo e do que faço. O show mais simples só com masturbação, de dez minutos, custa R$ 18. Faço shows de dez minutos a meia hora.

E o que faz os shows ficarem mais caros?
Ah, os fetiches. Eu uso bolinhas tailandesas para me masturbar, consolos (pênis de borracha), faço dominação, chuva dourada… Cada coisa tem um preço.

E você tem clientes fiéis?
Sim, vários! Alguns até me mandam presentes, querem me conhecer. Outros querem só conversar, pedir conselhos de cama, sobre o casamento, a vida.

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Há outras garotas para as quais, diferentemente da Noiva Linda, o dinheiro é prioridade. A carioca Ludmilla tem 25 anos e é stripper de webcam há cinco. Ela descobriu que se exibir pela internet podia dar di­­­­­­­nheiro quando estava pesquisando algum trabalho para ajudar a pagar a faculdade de medicina. Antes de começar a fazer os shows, observou outras meninas nas telas e decidiu arriscar. “O primeiro cara para quem eu consegui fazer o show era supersimpático. Ele foi me conduzindo, dizendo ‘faz isso, dança para mim, agora fica nua’ e percebi que foi tranquilo”, lembra a agora experiente cam girl. Após ter trabalhado em três portais, resolveu seguir carreira solo e lançou seu próprio site. Ela se forma médica este ano. Nesse período, aprendeu a usar brinquedos sexuais, realizar fantasias de seus clientes e criou alguns shows temáticos com fetiches. “Meu primeiro pênis de borracha era muito grande e grosso. Não tinha a menor noção que poderia doer. Fazer penetração com brinquedo não é a mesma coisa que ter uma relação sexual normal, até porque você faz aquilo várias vezes por dia. Depois comprei outros mais finos, menores, com formatos mais interessantes”, conta.

Embora separe totalmente a vida pessoal e a das telas, o trabalho intenso de até 9 horas por dia às vezes atrapalha sua vida sexual com o namorado, que desde o início sabe e apoia a opção de Ludmilla. “Ele entende que faço isso para pagar a faculdade, não é prostituição. Tiro a roupa, mas nada demais. Nunca encontrei ninguém pessoalmente e nunca vou encontrar”, diz. Ao mesmo tem­­­­­po, ela admite que já deixou de ficar com o namorado para trabalhar ou não conseguiu transar porque estava dolorida. Quando isso acontece, ela explica, os dois se divertem de outras maneiras. “Aprendi nesse mundo virtual que sexo não é só penetração, existem muitas brincadeiras possíveis.”

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Fetiches e brinquedos nas câmeras
O que as strippers de webcam mais fazem para provocar seus clientes

➜ Podolatria – brincadeiras sensuais com os pés.

➜ Smoking – exibição e masturbação enquanto fuma.

➜ Bolinhas tailandesas – masturbação vaginal e anal com um cordão que prende cinco bolas plásticas.

➜ Penetração – com vibradores e pênis de borracha. Pode ser dupla (vaginal e anal ao mesmo tempo).

➜ Squirt – orgasmo em jatos.

➜ Dominação – inversão de papeis em que a stripper humilha, dá castigos e controla a masturbação do cliente.

➜ Chuva dourada – banho de xixi (geralmente as strippers urinam em um copo)

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>>> Esta reportagem foi publicada na edição 349 da VIP, em abril de 2014.