Bob Burnquist fala à VIP sobre idade, a imagem do brasileiro no exterior e o 7×1 na Copa do Mundo

Aos 38 anos, o lendário skatista brasileiro recordista em medalhas nos X-Games segue quebrando tudo; confira a entrevista

por Pedro Só

PROFISSÃO PERIGO

No skate, me respeitam até demais. Ser iniciante em outra atividade me coloca na posição de aprendizado. Mas, se entro em algum esporte, sei que não vou ser prego, porque entro sério, disposto a evoluir. Há dois anos, comecei no jiu-jítsu. Sou faixa branca, mas já vou avançar. Foi assim no paraquedismo, no base jump, quando resolvi pilotar avião, e depois, helicóptero. Isso me levou a pensar em manobras misturando as duas coisas [ele saltou de um helicóptero em um half pipe, em 2013]. Para isso estudei aerodinâmica, me preparei. Tem gente que me vê como maluco, porra-louca. Mas sou muito cuidadoso. Me cerco dos melhores profissionais para fazer as loucuras a que me proponho. Amo a vida, não o risco.

ESCOLA DO SKATE

No skate, desde os primeiros rolês pelo centro, nos anos 1990, aprendi a viver em um mundo em que divisões de classe não importam tanto. Milionários e caras da favela andam na mesma pista, acima de preconceitos raciais, sendo respeitados pelo que fazem. Tirei o diploma de high school nos EUA e parei os estudos. Já tinha patrocínio e carreira como atleta. Meu pai até falou que eu precisava de uma faculdade, mas não fazia sentido.

O BRASIL LÁ FORA

A imagem do brasileiro no exterior mudou muito desde que comecei. No skate, nosso mercado era dominado por produtos copiados e marcas piratas. Em 1989, o Lincoln Ueda se destacou na Alemanha patrocinado por uma dessas [marcas] não autorizadas… Os caras botavam os brasileiros para competir à 1 da manhã, com luzes apagadas, para esconder isso. Mas fomos nos afirmando e, hoje em dia, falou em Brasil, em qualquer setor, eles prestam atenção.

BAIXA DO FUTEBOL

O 7 a 1 da Copa do Mundo foi bom, porque liberou a atenção para outros esportes. Não somos só o país do futebol. Temos talentos no surfe, no skate, em lutas. E não é só um nome, não sou só eu; tem o Pedro Barros, o Luan de Oliveira. Não é só o [Gabriel] Medina, são brasileiros no plural. Politicamente, o Brasil é visto como piada. Mas temos força para mudar. Como foi no skate.

MOLEQUE AOS 38

Fazer 40 anos me parece algo normal hoje, aos 38. Vou estar no gás. Chegar aos 30 era bem mais assustador. Me sinto melhor agora, porque a preparação e a fisioterapia evoluíram. Evitava a musculação porque achava que quanto mais massa ganhasse, mais os joelhos sofreriam. Aí as megarrampas me exigiram força, e o trabalho com pesos só ajudou.

TOMBOS NA VIDA

Já sofri mais de 30 fraturas. Quando caio feio, rezo para ter quebrado. Porque lesão em ligamento, torção, é mais complicado para recuperar. Só nos punhos, que uso para aparar quedas, foram cinco no esquerdo e seis no direito. Fora das rampas, o restaurante mexicano de comida orgânica que montei em San Diego foi um dos grandes tombos. Sem tempo para se dedicar, fica difícil tocar um negócio. No skate, todos os tombos me ensinaram. No pior, quando caí da megarrampa, há dois anos, fraturei o nariz em quatro lugares. Saí da cirurgia e o médico disse que nunca tinha visto um septo tão desviado e que tomou a liberdade de corrigir. Hoje respiro melhor.