Entrevista

 

FALAMOS COM O VILÃO DO ANO NA F-1

POR RODRIGO FRANÇA

O título da F-1 ficou nas mãos de Kimi Raikkonen, é verdade. Mas quem roubou a cena na temporada de 2007 foi outro personagem: Ron Dennis. O chefe da McLaren foi o centro das atenções durante boa parte do ano, seja no começo por ter sido o responsável pela chegada da nova estrela da categoria, Lewis Hamilton, seja pelo duro golpe sofrido no meio da temporada com a acusação de espionagem contra a Ferrari, que fez seu time ser desclassificado do Mundial de Construtores e ainda pagar uma multa de 100 milhões de dólares para a FIA (Federação Internacional de Automobilismo).

Foi difícil não colocar Ron como o vilão do ano, tanto que muitos viram o título de Kimi em Interlagos como uma grande vingança contra o homem que é conhecido por sua extrema frieza e, por vezes, mau-humor no paddock da F-1. Chegou até a proibir a circulação do Red Bulletin, publicação que satiriza o ambiente da categoria, em seu motorhome…

A imprensa italiana acusou Ron Dennis de ladrão, por ter um funcionário coletando informações da Ferrari. A espanhola, de traidor, por não dar privilégio a Fernando Alonso, bicampeão do mundo. Até a britânica reclamou contra Ron, por não dar a chance de Lewis Hamilton vencer em Mônaco… Em Interlagos, teve até cartola da federação espanhola de automobilismo para impedir que Alonso fosse prejudicado.

Em meio a tantas desconfianças e acusações, Ron também mostrou seu lado mais humano em 2007. Na Itália, ao vencer a corrida, ainda na tensão sobre a condenação de seu time, não conteve as lágrimas, diante das câmeras que levam para bilhões de pessoas as imagens da F-1.

No GP Brasil, o chefe da McLaren recebeu VIP para um papo (rápido, claro) em uma sala do hotel Hilton, onde esteve hospedado para o GP. E soltou o verbo em assuntos sobre Hamilton, Alonso, Prost, Lauda, espionagem, rixas internas etc. Leia a seguir:

Perda do título
Eu sou um batalhador e estou na F-1 para vencer. A McLaren toda está aqui para isso, então não é fácil terminar o ano sem vencer o Mundial. Estivemos tão perto disso, especialmente nas duas últimas corridas… Ao mesmo tempo, vencemos várias corridas em condições muito difíceis, com muita pressão em jogo, então prefiro ver o lado positivo do ano e já me preparar para a próxima temporada. Nós perdemos o título para nós mesmos, não tivemos a perfeição de ter total confiabilidade em todas as corridas. E tivemos problema justamente na pior hora possível.

Sobre Ayrton Senna
Desde a morte dele, percebi que sempre iriam me perguntar muitas coisas sobre Senna. Eu sempre respondo da mesma forma: eu tive uma relação pessoal com o Ayrton. Nós vivenciamos uma excelente fase juntos. Não me surpreenderia se ele voltasse um dia para a McLaren, se as coisas não tivessem ocorrido da maneira como foram (na tragédia de 1994). Não gosto de compartilhar com as pessoas o que vivemos em particular, isso é o caminho errado de se fazer isso. É muito pessoal. Ele era um piloto fenomenal e um tremendo ser humano e foi um privilégio tê-lo em nosso time e para ele pilotar para a McLaren, já que conquistou seus três títulos mundiais com nossos carros. Nós sentimos sempre falta dele, seja aqui no GP Brasil, seja em qualquer outro lugar do mundo.

Senna e seus fãs
Os brasileiros têm uma relação única e especial com o seu País, bastante afetiva. Eu nunca vi isso acontecer com qualquer outro país, o Brasil exerce um forte efeito magnético em sua população. Por exemplo, se um brasileiro fica umas duas semanas fora no exterior, ele já logo diz: “quero voltar para o Brasil”… Ayrton Senna não era exceção. (risos). Ele viajava milhares de quilômetros só para passar um único dia, somente para estar em casa! Ele me ensinou muito sobre a paixão pela vida, um jeito de vida que os brasileiros têm que os europeus não possuem.

Comparação Senna x Lewis Hamilton
Há um grande contraste entre o jeito e estilo de vida dos dois. Senna é o estilo de vida brasileiro, a paixão pela vida, Lewis já tem um jeito mais inglês, ele lida com as coisas de outra forma. As paixões deles percorrem direções diferentes. A mesma coisa com Fernando Alonso. Nosso grande desafio na McLaren sempre foi lidar com estas diferenças culturais dentro do time, porque elas às vezes trazem benefícios, outras vezes, dificuldades.

Rixa interna
Eu sigo (com Hamilton e Alonso) o caminho que sempre segui na McLaren: nós oferecemos aos nossos pilotos equipamentos iguais. Se você é competente o suficiente para ter o número 1 inscrito no seu carro, seja você Ayrton Senna, Fernando Alonso, ou qualquer outro piloto que teve o privilégio de ter sido campeão, este número simboliza que você foi o melhor de todos no ano anterior. Mas não quer dizer que você é o número 1 do time. E na McLaren, você tem igualdade. Há, claro, respeito por quem ostenta o número 1. Mas é exatamente aí onde começa e termina o assunto: é um respeito por aquilo que você fez no ano anterior. Ele não te dá nenhuma vantagem no ano em que você está competindo. Ayrton sabia disso, Alain Prost sabia, Niki Lauda sabia, Mika Hakkinen sabia… E se alguém tem algum problema com isso, isso não é problema meu.

Alain Prost
Ouvi que ele disse entender o que Fernando Alonso está passando na McLaren. Realmente, ele diz a verdade: é realmente muito difícil correr em um time com um companheiro de equipe competitivo. O desafio principal da F-1 é ter um carro competitivo e, se você consegue isso, o que será que é melhor? Um companheiro de equipe bom ou ruim? É claro que para vencer, você terá, antes de qualquer coisa, que vencer seu companheiro de equipe. E, obviamente, se você tem o melhor carro do grid e é melhor que seu companheiro, então suas chances serão maiores de ser o campeão do mundo. Mas é claro que, se você tem um companheiro rápido, a disputa pelo título será um grande desafio. E é justamente quando isso acontece que o piloto pode se sentir de alguma forma sensível com a forma que o time trabalha com ele. Alain sabia disso e teve em Ayrton um grande rival. Prost se sentia confortável na situação oposta, com Niki Lauda (o austríaco era o campeão e Prost, o novo talento), porque conseguia ser mais rápido do que ele… Esta é a verdade.

Relação com os pilotos
Costumam me dizer que tenho uma relação fraternal com Lewis Hamilton. A melhor resposta para isso é recorrer ao ensinamento de um amigo que me ensinou muita coisa, Dr. Sid Watkins (responsável pela equipe médica da F-1 durante décadas). “Ah, as crianças… quanto mais crescem, mais a gente se preocupa!” Quando eles eram menores, davam muito menos trabalho. Agora, crescidos, você continua preocupado, mas com coisas diferentes. Em várias situações, eu me pergunto: por que eles fazem coisas tão bobas? Por que eles dizem coisas tão bobas? E veja bem, isso não é um comentário específico para qualquer piloto… Você se sente como um pai e pensa: que coisa estúpida que estão fazendo… Mas você não tem o direito de tratá-lo como um filho, não pode se dar a este luxo. Afinal, os pilotos são adultos e é como adultos que você tem que tratá-los, ainda que eles se comportem de forma infantil em algumas vezes. Novamente, volto a dizer, não estou falando isso em relação a nenhum piloto específico, mas a vontade que dá é pegar os dois pela orelha e, bang, fazê-los bater a cabeça, como se faz com crianças (risos). Mas na minha posição, é claro que não se pode fazer isso. O castigo muitas vezes acaba vindo pela mídia… (NOTA: impossível não pensar que Ron Dennis fala sobre a briga Hamilton-Alonso ou Senna-Prost).

Sobre a entrevista
Será que poderiam ser só mais duas perguntas? (risos), quando o assessor avisa que há poucos minutos pela frente.

O ano de Hamilton
Esta é uma pergunta que já respondi várias vezes e nunca do mesmo modo. Trabalhamos com nosso time de forma bastante científica, nós analisamos e coletamos tudo, informações, estatísticas, enfim, dados fundamentais, de modo a ajudar nosso desempenho. No começo do ano, um funcionário me deu um relatório que acreditava que poderia ser útil. Era um levantamento baseado nos últimos 20 anos e que apontaria quantos GPs levaria um estreante como Lewis para estar na pole position, no pódio, vencendo e disputando o título, de forma bastante realista. Havia um relatório imenso sobre cada previsão, com detalhes e argumentos. Pois bem, depois da terceira corrida, joguei tudo fora, porque nada dava certo (risos). Nenhuma estatística, por mais otimista que fosse, iria prever o sucesso que Hamilton alcançou de forma tão rápido. Muitas pessoas pensam: ah, mas ele é apenas um cara jovem e talentoso que conseguiu uma vaga logo em seu primeiro ano em um carro competitivo na F-1. Eu respondo: ah, ok, concordo. Mas que tal lembrar que ele corre contra o atual bicampeão da categoria no outro carro? Ninguém, nem mesmo Fernando, nem mesmo eu ou qualquer pessoa com experiência no automobilismo esperaria que Lewis tivesse um ano tão fantástico como ele teve.

Perda do título em Interlagos
Meu julgamento sobre Lewis Hamilton não foi alterado pela corrida de domingo. Na verdade, antes mesmo da largada, já tinha decidido que ele havia superado todas as expectativas. É um fato, as estatísticas me mostram isso. Eu continuo impressionado com a forma como ele lida com toda a pressão do ambiente da F-1 e isso eu percebi desde o primeiro teste dele em um carro da categoria. E não tenha dúvida: ele sabe pegar as adversidades e achar um caminho de transformá-la em energia positiva para ter o melhor benefício possível.

Duelo Alonso e Hamilton
Com o passar da temporada, eu me afastei do trabalho pessoal de cada piloto, o que não é muito comum para mim. Os holofotes estavam voltados para nós e fomos desafiados em tudo o que fizemos. Cada um tinha um dedicado grupo de engenheiros, e todos nós trabalhamos na direção de conquistar o título. Desde o começo da temporada, nenhuma atitude a favor ou contra qualquer piloto foi determinada nem será determinada por mim.