“Nós da TV brasileira precisamos nos reinventar”, afirma Thiago Lacerda

O ator de 38 anos, que faz participação especial como Tiradentes na nova novela das 11 da Globo, fala sobre cinema argentino, insalubridade das redes sociais e diz não estar nem aí pro politicamente correto

por Ranieri Maia Rizza

Televisão Brasil x Eua

A nossa dramaturgia televisiva sempre foi muito boa e reconhecida, faz parte da nossa tradição cultural. Mas a indústria americana descobriu como transformar a dramaturgia. Transportou elementos cinematográficos para a TV, criando uma nova medida de comparação — daí o sucesso de suas séries. No Brasil, precisamos encontrar e investir em dramaturgos e roteiristas de qualidade. Teve uma perda de espaço para as novas tecnologias e o público repensou seu gosto. Todos nós, da classe, precisamos nos reinventar. 

Cinema Brasil x Argentina

Os atores e técnicos argentinos não são melhores que nós. É a qualidade da dramaturgia cinematográfica deles, tão bem escrita, que faz com que tenham o cinema reconhecido. Não sou homem de cinema, falo como espectador. Vemos poucas histórias bem ajambradas como as que os argentinos contam. É questão de educação – no Brasil, negada há muito tempo. Um povo que lê pouco é mal-educado. É difícil encontrar um roteirista que revolucione, que mostre uma história corajosamente bem contada. A importância dada à educação reflete na qualidade dos roteiros.  

Internet insalubre

As redes sociais têm aspectos maravilhosos assim como terríveis. Positiva é a questão da comunicação, mas, ao mesmo tempo, você se depara com dificuldade de argumentação, boçalidade cultural e intolerância. Aí, quando uma pessoa diz não ter opinião sobre um assunto, é promovida uma caça às bruxas. O patrulhamento vem da ideia de anonimato, em que você pode dizer o que quiser. Talvez demore um tempo para que essa tecnologia se torne saudável.

Exposição veemente

Sou bastante incisivo nas opiniões. Não resisto à minha necessidade de veemência. Mas tem que se ter cuidado, porque influencio por ser uma pessoa pública. Então tento, na medida do possível, ser econômico. Gostaria que as pessoas tivessem um encorajamento, uma noção de informações a serem colhidas. Saber a medida do exagero. Mas não tenho medo de me expor, de dizer o que penso. Estou cagando para os politicamente corretos. Me posiciono como cidadão ao emitir  minha opinião. Esse governo pediu meu voto e não me envergonho de ter votado no PT. Lamento que as coisas tenham fugido ao controle. Nesse momento, sou oposição.

  (Créditos: Adriano Fagundes)

(Créditos: Adriano Fagundes) (/)

Shakespeare pop

O público das peças do Repertório Shakespeare [projeto de duas peças do dramaturgo inglês, com Thiago e Giulia Gam] tem variadas faixas etárias. Geralmente, público de teatro é mais velho. Fico feliz com o que está acontecendo, de ter uma audiência mais jovem. Vamos seguir fazendo teatro shakespeariano popular para a plateia brasileira. É bom lembrar que nós temos nosso Shakespeare, Nelson Rodrigues. Só não devemos esperar mudança na nossa trajetória econômica, como houve na Inglaterra desde a época pobre de Shakespeare. Não vamos virar uma potência. A corja da qual fomos feitos não permite que tomemos as rédeas do nosso próprio destino. 

Assédio feminino

O assédio acontece e as investidas são cada vez mais ferozes. As mulheres estão no seu direito. Isso sempre foi cercado de preconceitos. E hoje a força delas é latente, com mais confiança, mais voz, condições de se manifestar. A maneira de lidar com o empoderamento, com a abordagem mais direta, não muda. Não muda a resposta. A decisão de aceitar investidas ou se preservar não depende disso. A escolha é sua e independe do modo como vem de fora.