QUANDO ELAS NOS ATACAM

Carol, nossa repórter gata, sai num conversível de R$ 785 mil com a missão de xavecar homens para testar a reação deles

Estou num Audi R8 Spider, um conversível de 525 cavalos que acelera de 0 a 100 km/h em 4,1 segundos, chega a 313 km/h e custa R$ 785 mil. É exatamente o carro que o Roberto Carlos (sim, o Rei) está usando enquanto o dele, vermelho com o interior branco, não fica pronto.

Minha missão: passar algumas várias horas dando voltas em São Paulo com esse carro absurdamente incrível. Oh, vida difícil. Convidei minha amiga Gi Faresin para me acompanhar nessa árdua tarefa – se uma mulher num carro daqueles já chama a atenção, imagina duas. Sim, caro leitor, a ideia era causar. Porque a missão não parava por aí: eu dirigindo aquela bela máquina também precisava xavecar os caras para ver como eles reagiriam a essa overdose de estímulos. Duas loiras num Audi R8, a materialização do sonho masculino. O que eles fariam estando do outro lado? Se intimidariam? Manteriam ainda a pose de ataque do macho paquerador?

Estávamos especulando sobre a reação alheia e esquecemos de pensar na nossa. Não se passa incólume por um carro desses. É preciso dizer que dirigi-lo é quase uma experiência erótica. Essa foi a conclusão a que chegamos. Gi disse que o ronco do motor despertou nela um instinto masculino, ela podia sentir a testosterona correndo pelo seu corpo. Eu, ao dirigi-lo, sentia um poder embriagador, uma euforia a cada acelerada, algo muito próximo do tesão. Nas primeiras quadras já ouvimos gritos e manifestações de admiração. Não havia como passar despercebido, estavam ali os maiores símbolos idolatrados em nossa sociedade obcecada com a superfície das coisas: o sexo e a beleza (materializados em suas maiores representantes, as mulheres) e o dinheiro (materializado no carro). Sexo + beleza + dinheiro = poder. E poder, você sabe, no mínimo modifica bastante quem o possui. Lembrei de uma frase do Bernard Shaw: “A beleza é subversiva”. Oh, yeah. Constatamos.

E logo estávamos duas bobas gritando qualquer coisa para os homens, simplesmente porque a gente PODIA. A junção carro incrível & mulher causa uma admiração quase histérica por eles. Do trabalhador no caminhão de lixo ao mauricinho com roupa da moda, todos faziam alguma gracinha, quase atrapalhando nossa séria missão de nos tornarmos, uma vez na vida, as que xavecam. Até um casal deu em cima da gente. Num sinal, para ao nosso lado uma caminhonete. O charmoso motorista brincou falando que queria fazer um racha. Logo apareceu ao lado dele uma loira bonita falando que queria estar com a gente no carro. E o cara: “Para onde vocês vão? Podemos todos passar a noite juntos em um lugar…” Será? No, thanks, estamos trabalhando.

Passamos pela Vila Madalena (onde causamos maior furor), pelos Jardins (onde o povo olhava, mas fingia não olhar) e no Itaim (onde todos decifravam direitinho aqueles símbolos).

Passamos devagar na frente do restaurante/bar Nagayama e, diante das reações eufóricas dos homens, resolvemos parar. Um deles chegou a ir até o carro nos oferecer saquê. Decidi entrar e conversar sobre o assunto. Viramos a atração do bar, sucesso devidamente alicerçado em nosso belo conversível que foi visto e comentado. E foi ali que rolaram as análises antropológicas mais interessantes.

Perguntei o que eles acharam quando nos viram no Audi. Um deles me disse: “Quando vi duas loiras saindo do carro fiquei logo procurando o jogador de futebol por perto”. Achei o comentário extremamente machista, mas logo outro cara emendou: “Vejo e penso que ou é do marido, do amante ou do pai”. Diante do meu espanto, ele se explicou melhor: “Não é por mal, mas uma mulher tendo dinheiro nunca escolheria comprar um carro desses, ela compraria outro modelo ou outras coisas”.

Sentamos numa outra mesa. Perguntamos se eles olharam antes para as mulheres ou para o carro. “Para o carro. Mas logo para vocês. Duas loiras num carro daqueles…”, disse um cara. Pergunto se numa situação dessas ele prefere o carro ou as loiras.

“O carro, pois com ele eu posso ter sempre a mulher que eu quiser.”

Direto o pessoal, não?

E ele completa: “O objetivo do homem é sempre uma gostosa. Quem gosta de dinheiro é mulher e viado; homem gosta de mulher. Essa é a verdade”.

Com essa profunda afirmação, deixamos o divertido local. Acelerando na rua, vento batendo no rosto & cabelos esvoaçantes, como numa cena clichê de um road movie, avistamos pedreiros numa obra de rua. Sim, eles, esses seres que nos atormentam a vida toda com suas cantadas baratas, com seus assobios, enquanto passamos irritadas, fingindo que não estamos ouvindo. Era a hora da vingança. Aceleramos e gritamos: “Gostosooooo!”, logo emendando um empolgadíssimo “nooooosaaa”. Que vingança o quê… eles, apesar de petrificados, num clima será-que-estousonhando, obviamente adoraram. Cena que resume consideravelmente a diferença entre homens e mulheres.

Conclusão no 1: homem é um caso perdido, não se intimida com nada se tem mulher gostosa na jogada. Conclusão no 2: impossível ser mulher e xavecar sem ser xavecada de volta. O que para nós é um incômodo, para os homens é a glória. Conclusão no 3: preciso ser milionária para sentir mais vezes o poder de um carro desses.

Eram 2h30 da manhã e a carruagem virava abóbora. Com muita dificuldade, entreguei o belo carro na garagem da Editora Abril e, recebendo leves e bem-humoradas cantadas dos seguranças, peguei meu Fox. Pronto, estava de volta ao meu mundo, onde tenho um carro normal e sou eu o alvo das cantadas. Mas valeu a experiência. E duvido que o Audi R8 se divirta tanto com o Rei quanto se divertiu comigo.