José Padilha: “O que é Hollywood hoje? Hollywood é um bairro”

O brasileiro da vez na Netflix fala sobre sua relação com a vida, as nuances da carreira e de seu oscilante sucesso, de "Tropa de Elite" a "O Mecanismo"

VIP-JOSE-PADILHA-028

 (Fred Othero/Revista VIP)

Era 2013, cinco anos atrás, e José Padilha dirigia seu primeiro filme em Hollywood.

O set de RoboCop, remake do clássico dos anos 80, fora instalado no Canadá, e lá ele orquestrava as filmagens.

Tinha 45 anos, estava sozinho porque longe da família, e, também, cercado, observado de perto por críticos, imprensa, diretores, executivos e afins em sua estreia hollywoodiana.

Justamente naquele momento, Padilha se viu na emergência de um hospital.

O médico que lhe deu o diagnóstico de diverticulite mandou parar tudo.

“O cara queria me operar. Sim, fazer uma cirurgia durante as filmagens. Imagina?”, conta, estarrecido ainda hoje com o disparate sugerido pelo doutor.

Respondeu no ato: “Não. Só vou parar quando terminar o filme”.

E foi-se embora com a sentença, a lista de antibióticos e a dieta espartana a que teria de se submeter por protelar a operação – 40 dias de quase jejum, “algo como ficar praticamente sem comer até o fim das filmagens”.

Padilha cumpriu a penitência, rodou seu RoboCop a duras penas e, enfim, passou pela cirurgia.

“Naquele momento, resolvi tomar conta de mim. Desde então, passei a olhar para a saúde e hoje me alimento bem melhor, tento não comer muita besteira. Mas também não sou xiita, nem virei vegano. Comecei a fazer exercícios no mínimo três vezes por semana.”

Já RoboCop não gerou tremor de igual escala.

Fez pouco: em bilheteria, em repercussão e na trajetória de Padilha.

Na carreira, o abalo veio mais tarde, e em outro endereço. Padilha brilhou com a série Narcos. Hoje, ele é o brasileiro da Netflix.

 

“O que é Hollywood hoje? Hollywood é um bairro”?

josé padilha

 (Fred Othero/Revista VIP)

Diz à VIP, horas depois de lançar no Rio sua segunda produção na Netflix, O Mecanismo.

Naquele abafado dia de março, Padilha girou entre jornalistas no Copacabana Palace de 10 da manhã às 6 da tarde, cumprindo a estratégia de divulgação de sua série.

Dado o contexto, impossível não sentir certo desdém no discurso do diretor sobre o declínio de Hollywood: “É apenas um conceito vago associado à ideia de glamour. RoboCop é um filme de Hollywood, mas não teve a repercussão de Narcos, que é produto da Netflix. Entende? Essa ideia de que Hollywood é um lugar em que você vai fazer alguma coisa de grande repercussão já passou, essa ideia já era”.

Na nossa conversa, Padilha responde a cada pergunta em tom quase didático, com uma pequena palestra sobre o assunto em questão.

Sobre a tradicional indústria do cinema, ele segue: “Já não sei exatamente o que é Hollywood. Antigamente as pessoas pensavam nos estúdios, na Warner, na Universal… Hoje em dia, o audiovisual está completamente diferente, você pode fazer um filme, colocar no YouTube e ter 8 milhões de views. E nesse caso você é o quê? O grande diretor de onde? Não sei. E daí? Tudo mudou”.

Respira alguns segundos, como se buscasse ar fora da água, e logo mergulha de novo, em nado veloz: “Posso dizer sobre mim, e eu estou mais interessado na qualidade, na relevância do trabalho do que em sua repercussão. Não me importo com status, com essa coisa de dizerem: ‘Nossa, você está trabalhando em tal lugar, você é reconhecido, você é um sucesso’. Para mim, a resposta é sempre: ‘Ok’”.

padilha

 (Fred Othero/Revista VIP)

O proclamado desapego, no entanto, parece combinar mais com a camiseta azul que compõe seu estilo low profile ao lançar O Mecanismo no Rio do que com o tema que Padilha elegeu para a série: a Operação Lava Jato, personagem do núcleo principal na novela da polarização no Brasil.

As investigações da Polícia Federal, além de prender políticos e empresários envolvidos no megaesquema de corrupção, rendem inflamados confrontos, das redes sociais aos noticiários.

Padilha não poderia ter escolhido assunto mais controverso – e, também, o mais eficiente chamariz para o novo produto.

No fim de maio, a Netflix confirmou a segunda temporada da série e divulgou um teaser.

As filmagens devem começar no fim do ano.

Tão logo O Mecanismo estreou (e inaugurou suas polêmicas), o diretor ocupou o centro dos holofotes.

A série suscitou de campanhas de boicote a Netflix (por parte de assinantes) a ameaças de processos (por parte dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff) sob a alegação de que Padilha teria desvirtuado fatos reais para moldar a narrativa de acordo com suas convicções políticas.

 

josé padilha

 (Fred Othero/Revista VIP)

 

“O Mecanismo não tem ideologia”

Ele, então, passou a entoar como mantra a réplica:

“O Mecanismo não tem ideologia. A corrupção existe em governos de esquerda e de direita. Quem tem ideologia são os formadores de opinião, estes, sim, de esquerda”.

A querela rendeu, e Padilha foi junto.

Disparou contra críticos em entrevistas aqui e acolá, em publicações do Brasil e de outros países.

Em texto publicado na Folha de S.Paulo, disse que “esperava mais dos formadores de opinião da esquerda”: “Pensei que em algum momento da história fossem acordar do estupor ideológico e ajudar pessoas de bem na luta contra o mecanismo que opera no mundo real, em vez de se associar a ele para lutar contra o mecanismo exposto na Netflix”.

A empresa portou-se qual inabalável rainha do mercado, não entrou em brigas e confirmou a segunda temporada. O

diretor, assim, saiu ileso de mais um vespeiro.

Tropa de Elite, seu filme de maior repercussão, também nasceu sob a égide da polêmica – a começar pelo protagonista, um capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais), do Rio de Janeiro, à frente do grupo policial notório pela violenta atuação nas favelas cariocas.

Para engrossar o anunciado angu do roteiro, o longa foi pirateado; um mês antes de chegar aos cinemas em 2007, já havia estreado em camelôs pelo país e, dessa forma, somou, estima-se, mais de 10 milhões de espectadores.

A PM se enfureceu e processou Padilha pelas cenas violentas do filme.

Ele, por sua vez, saiu com o Urso de Ouro do Festival de Berlim.

O prêmio, somado ao alvoroço em torno do premiado, azeitou o percurso do diretor brasileiro rumo à meca do cinema mundial.

Tropa ainda fez mais: ajudou a refrescar a memória de executivos da indústria cinematográfica e de críticos quanto às obras anteriores de Padilha, como o documentário Ônibus 174, de 2002.

Se foi menos pop que Tropa, por outro lado arrebanhou prêmios.

VIP-JOSE-PADILHA-257

 (Fred Othero/Revista VIP)

Em 2005, quando ganhou o Emmy de melhor documentário em longa-metragem, já tinha amealhado mais de 20 troféus mundo afora.

O objeto do filme? Polêmico, também.

Ônibus 174 focou na atuação da polícia no sequestro de um ônibus no Rio.

Depois veio Tropa de Elite 2, que não fez o mesmo barulho do primeiro, e o bem menos comentado Segredos da Tribo, documentário ou quase estudo antropológico sobre indígenas da Amazônia.

O filme, de 2010, passou quase despercebido, verdade seja dita, mas Padilha não o exclui da conta feita pelos executivos de Hollywood para convidá-lo a dirigir RoboCop, anos mais tarde.

“Os caras olharam e disseram: ‘Pô, esse diretor fez ficção que deu certo, caso do Tropa, também fez documentários que deram certo, que foram aclamados, como o Ônibus, o Garapa, o Segredos da Tribo…’. Tudo isso foi levado em consideração quando os caras de Los Angeles começaram a me procurar”, afirma.

Ainda assim, é difícil negar que os filmes policiais – os mais populares e, logo, mais lucrativos – hão de ter peso maior na equação de uma indústria focada em resultados de bilheteria.

Não por acaso, o primeiro convite de Hollywood ao brasileiro foi para dirigir justamente um filme policial e potencial blockbuster.

RoboCop aumentou a lista de policiais na filmografia de Padilha.

Ele, como de costume, tenta se esquivar de rótulos.

Não se vê nem teme ser visto apenas como um diretor de filmes policiais.

 

“Escolho fazer um filme sobre algo que me interessa”

jose padilha

 (Redes Sociais/Reprodução)

“Vou repetir: eu, Padilha, não escolho fazer um filme porque é policial, político ou por qualquer outra classificação. Escolho fazer um filme sobre algo que me interessa. Nunca pensei se ficaria rotulado disso ou daquilo”, afirma.

Como exemplo, ele cita outra de suas estreias de 2018, o longa 7 Dias em Entebbe, sobre o sequestro de um voo por terroristas pró-palestinos nos anos 70.

Mas… não se trata de outro thriller policial?

“Não. Todo mundo fez esse filme do ponto de vista militar, e eu fiz diferente. É ainda uma história militar, sim, mas no meu filme você vê os políticos, os reféns, os terroristas, e quase não vê os militares. As pessoas perguntam: ‘Cadê os militares?’. Percebe a diferença?”, questiona.

Sem deixar tempo para resposta, continua: “A ênfase não está na polícia, nos militares. É por isso que repito: faço o que me interessa. E gosto de fazer filmes que geram algum tipo de reflexão sobre o mundo real. Poderia, por exemplo, realizar filmes só referentes ao cinema, sobre a arte cinematográfica em si. Mas eu tendo a não fazer isso e vou pelo assunto, decido o trabalho pelo tema, se ele me interessa ou não”.

Suas escolhas, portanto, não são tão calculadas como poderia supor um incauto ante uma filmografia composta por Ônibus 174, Tropa de Elite, RoboCop ou mesmo O Mecanismo.

Padilha volta a dizer: “Eu não penso: o que esse filme vai fazer pela minha trajetória? Entende? A verdade é que eu tenho muito pouco raciocínio de carreira”.

Seguindo sua história, vê-se que ele, de fato, não traçou um plano para ser hoje o diretor brasileiro queridinho da Netflix, ou, antes ainda, para ser um diretor de cinema.

Quando adolescente, Padilha se ocupava mais da vida ensolarada de um jovem de classe média alta solto na zona sul do Rio de Janeiro.

josé padilha

 (YouTube/Reprodução)

Pegava onda e, sobretudo, jogava tênis – tanto que, garoto, sonhava em ser tenista profissional.

A ambição de atleta, porém, parou numa lesão no ombro, que o tirou das quadras.

Nos estudos, o percurso irregular só faz confirmar a falta de planejamento: Padilha ingressou na PUC do Rio como aluno do curso de engenharia.

Mudou para física.

Acabou em administração de empresas.

Da faculdade, caiu no mercado financeiro.

Mas o filho de uma dona de casa paranaense e de um industrial carioca sempre teve bom acesso à cultura e, quando se cansou do trabalho no mercado, já conhecia o cineasta Marcos Prado.

Já havia lhe apresentado a proposta de um documentário.

Em 1999, os dois lançaram, como produtores, Os Carvoeiros.

“Para você ver como não me preocupo com repercussão, Os Carvoeiros é um filme pelo qual tenho muito carinho, mas que pouca gente viu. É o mesmo caso de Garapa. Este, então, ninguém viu, e eu adoro…”

Com Marcos Prado, o carioca fundou a produtora Zazen, sediada no Rio.

Dela, surgiram o famoso Tropa de Elite e o azarão Garapa. Nela, também, Padilha foi feito refém: ficou trancado lá dentro quando a pacata rua do Jardim Botânico onde está a empresa foi invadida por duas motos e um carro.

A produtora foi cercada por quatro homens, e Padilha, que já recebia ameaças desde a estreia de Tropa de Elite, ficou atrás da porta em pânico.

Os homens foram embora, e o diretor contratou seguranças. Em menos de um mês, decidiu-se por deixar o Rio. “Não queria viver daquele jeito.”

 

josé padilha

 (Filme B/Reprodução)

 

Vida lá fora

O acaso então lhe foi generoso: calhou de chegar, naquele momento, a proposta de Hollywood para filmar RoboCop. Foi a deixa de Padilha para partir rumo a Los Angeles, onde vive desde então com a família, a arquiteta e designer Jô Rezende, com quem está casado há 23 anos, o filho Guilherme, hoje adolescente (e tenista, como um dia sonhou para si o pai), e Rodrigo, o primogênito de Jô, fruto de outro casamento, que fica entre Brasil e Estados Unidos.

Lá, os Padilha ocupam uma casa que ele descreve apenas como confortável.

A imprensa, ao contrário, costuma chamar a residência de mansão e atribuir-lhe valor milionário (3 milhões de dólares, especula-se).

Padilha se mostra contrariado e pronto inicia outra breve palestra sobre o assunto.

O modelo de discurso é o mesmo: de um tópico qualquer, seja ele o sucesso ou as críticas que recebe, inicia uma fala didática, quase impessoal, parte do individual para o global e desemboca no problema do… mecanismo.

Sobre a casa (ou mansão) que tem em Los Angeles, por exemplo, ele desanda a falar: “Moro numa casa confortável, igual a todas as que estão em volta de mim. Se você der uma volta no meu quarteirão, verá outras casas praticamente iguais. Não sou milionário, nada disso. Nos Estados Unidos, é possível comprar uma casa financiada em 30 anos, com juros de 2% ao ano, pagando módicas prestações. Então você mora numa casa de 3 milhões de dólares e paga o valor de um aluguel no Jardim Botânico, no Rio. A miséria brasileira, o sistema financeiro e a falta de crédito do país condenam as pessoas a morar em condições muito ruins. É uma questão de taxa de juros do Brasil. E isso também está ligado ao mecanismo, à relação entre políticos e bancos no país. Nos Estados Unidos, não existe isso”.

Em Los Angeles tampouco frequenta festas.

josé padilha

 (Getty Images/Reprodução)

“Vez ou outra vou a um restaurante, mas, não, festa não. A verdade é que, se não estiver filmando, passo a maior parte do tempo em casa, lendo, estudando, pesquisando… Sou um diretor barra/escritor, é isso o que faço. Não tem glamour algum, viu?”, diz, num dos poucos momentos em que dá risada.

No modelo de vida caseira que leva, Padilha se diferencia de boa parte dos seres humanos num aspecto em especial: ele não cai na tentação da internet.

O diretor desconhece a maldição dos textões e também a bênção dos memes, dos vídeos de gatinhos e outras procrastinações disponíveis no vasto mundo virtual.

“Nunca entrei no Twitter. Nunca vi um Facebook na minha vida. Não tenho Instagram, embora exista até uma conta lá com meu nome. E não tenho a menor noção do que diz o verbete sobre mim na Wikipedia” – a propósito: ele não estudou literatura inglesa nem política internacional em Oxford, como consta de seu perfil na enciclopédia on-line.

“Não tenho nada contra Facebook, Twitter e Instagram, mas a minha velocidade de consumo não é essa. Não estou paranoico em saber o que aconteceu agora. Prefiro pegar um assunto e entendê-lo…”.

Não lê nem mesmo os jornais brasileiros na internet? “Não. Só os artigos de algumas pessoas de que gosto. Não leio notícias.”

Nem mesmo as da Operação Lava Jato, que inspira sua série?

“Muito pouco. Claro que, por causa do trabalho, eu me dediquei mais a ler o noticiário, mas eu prefiro olhar o assunto e, por exemplo, ligar para um sociólogo, para pessoas que entendem daquilo. Ou pesquiso livros sobre o tema em questão. Não fujo do jornalismo, mas não sou um consumidor ávido de notícias. Prefiro ler uma entrevista de 20 páginas na New Yorker a ver um tweet de sei-lá-quantos-caracteres.”

josé padilha

 (YouTube/Reprodução)

Talvez por isso seu mais antigo hábito seja o de meditar.

Padilha o faz todos os dias.

Não segue um padrão – pode meditar por uma hora ou alguns minutos, quando o trabalho lhe impõe a antipática frequência acelerada –, não se vale de aplicativos nem de regras.

“Faço isso há 500 anos”, conta, sem saber dizer como incorporou a prática em sua rotina.

E logo, como se tomasse pé outra vez da própria mortalidade, completa: “Não tenho medo de envelhecer, nem tenho medo da morte. Talvez a meditação ajude a parar com essas besteiras…”.

Num último pedido de desculpas pelo cansaço, Padilha diz que gostaria de ir embora para telefonar à mulher, em Los Angeles.

“Você me desculpa?”, pergunta, já se levantando da cadeira.

Estica os braços e pede à repórter para que tome nota: “É importante dizer que meditação não é para curar nada. A melhor forma que o ser humano encontrou de entender o mundo é a ciência”.

Já rumo à saída do salão do Copacabana Palace, encerra a conversa com a frase:

“Meu Deus é a ciência”.

Newsletter Conteúdo exclusivo para você