Manuela D’Ávila: “Quero fazer a disputa com Lula no voto”

Pré-candidata à Presidência da República, a gaúcha defende a democracia e a liberdade do ex-presidente

Manu D`Ávila

 (Luiz Maximiano/Revista VIP)

Enquanto eu pensava sobre o que escrever neste texto introdutório a respeito da deputada estadual do Rio Grande do Sul Manuela D’Ávila, outra política, a vereadora Marielle Franco, foi morta no Rio de Janeiro, em março.

Fiquei sabendo do crime quase imediatamente pelo Instagram de Manuela, que se disse “chocada e triste” e avisava: “Ninguém vai calar as mulheres que lutam, Marielle”.

Embora oriundas de realidades distintas (uma é branca, gaúcha e filha de juíza; a outra era negra, moradora da favela e homossexual), associei na hora suas histórias.

Ambas passaram a vida militando, especialmente, por direitos humanos e das mulheres.

Manuela Pinto Vieira D’Ávila, que discursou em uma manifestação contra o crime, é pré-candidata à Presidência da República pelo PCdoB. E a pauta “mulher” é um de seus debates principais.

Deputada federal duas vezes, em 2014 ela resolveu concorrer para a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul porque tinha planos de se tornar mãe – o que, de fato, aconteceu há dois anos e meio.

A gaúcha, que teve a intenção de disputar a corrida presidencial anunciada exatamente no mesmo dia em que se casou com o músico Duca Leindecker, prometeu em suas redes que o luto por Marielle vai se tornar sua luta.

Dias antes do crime, ela havia conversado com a VIP por três horas. Mais alguns dias e a prisão do ex-presidente Lula seria concretizada. Manuela estava ali, ao lado do líder petista em seu último discurso antes do cárcere. Nele, Lula destacou ela e Guilherme Boules, pré-candidato à presidência pelo PSOL, como as lideranças políticas que irão levar adiante seu legado.

Rápida no raciocínio, com o sotaque cheio de “tus”, marca de oralidade típica dos pampas, tratou sobre política, sobre ser comunista hoje, maternidade e as aventuras nas quais o marido a coloca – como ter saltado de paraquedas.

 

O anúncio oficial de sua candidatura à Presidência aconteceu no dia do seu casamento. Como foi isso?

Esse detalhe é engraçadíssimo. Começou a conversa no meu partido, o PCdoB, sobre nós termos candidatos a presidente durante todo o ano passado.

O partido é presidido por uma mulher, a Luciana [Santos], jovem também, que me consultou se eu aceitava o desafio de ser quem disputaria. E a reunião do partido foi marcada para 3, 4 e 5 [de novembro de 2017], e no dia 5 estava marcado o meu casamento.

Na hora em que eu estava indo encontrar o meu marido, no lugar da festa, recebi um torpedo: “A gente já mandou para a imprensa a nota em que tu é a nossa candidata”. Eu: “Como assim, gente? Esperem eu casar!” [risos].

Minha lua de mel foi linda, uma noite só. Foi interrompida pela candidatura presidencial. Para mostrar que são dois casamentos que a pessoa fez na vida: um com o partido e um com o marido, celebrados no mesmo dia.

 

Quando você começou a construir a sua carreira, pensava em ser presidente?

Sabe que eu nunca fiz um plano de carreira? Entrei na universidade e me filiei a um partido pequeno, que é o PCdoB.

Ser candidata a presidente não passava no horizonte de uma militante do meu partido. Achava que ia ser professora universitária, fiz dois cursos superiores. Fui eleita vereadora, mal saí da universidade [aos 23].

Aceitei a concorrer a deputada federal e meu partido nunca tinha eleito um no Rio Grande do Sul desde [Luiz Carlos] Prestes. Ninguém achava que eu ia me eleger. Então minha carreira foi sendo construída muito mais a partir de as coisas darem certo do que de um plano dentro da política – até porque política não é uma carreira, tem a ver com representatividade.

Quando comecei, o feminismo que existe hoje ainda não era materializado tão intensamente. Às vezes coloco TBT [sigla usada para relembrar memórias] nas minhas redes de matérias feitas comigo – falo de 2004, 2006 – e penso que jamais hoje uma mulher seria submetida ao que fui. Pelo menos não oficialmente nos grandes veículos de comunicação.

 

Manu D`Ávila

 (Luiz Maximiano/Revista VIP)

 

Submetida a quê?

Todas as matérias ao meu respeito, 100% delas, destacavam só a estética. “A musa do Congresso”. Sempre isso. E não a minha trajetória real, alguém que era da UNE, que não tem pai ou mãe políticos, algo que no Brasil é raríssimo.

 

Incomodava na época ou só é uma coisa que agora você olha e pensa: como isso aconteceu?

Tu está certa nas duas coisas. Isso me incomodava muito, mas como não existia um acolhimento muito grande na sociedade ao meu incômodo, hoje percebo com muito mais intensidade ao que eu fui submetida.

Me incomodava – tanto que tu vai ver as minhas respostas, às vezes. “Ai, como tu é mal-educada”, falavam. “Por que tu não aceita que te chamem de bonita?”. Então eu recebia muitas críticas por reagir a isso, muitas.

 

Mas insistem ainda nisso hoje, não?

Acho que fazem de uma forma diferente. E fazem comigo e com todas as mulheres. Então insistem, né? Porque todas as mulheres, em qualquer lugar, têm que mostrar competência superior à de um homem nas mesmas condições.

Certamente o fato de eu ter 36 anos, já estar no meu quarto mandato, não ter parentes importantes, ser mãe, mestranda, seria visto como um atributo muito grande num homem. E eu continuo tendo que mostrar que conecto lé com cré. Eu e todas as mulheres. Porque nos subestimam intensamente intelectualmente.

 

Teve uma situação de machismo que mais marcou?

Nada me chocou tanto quanto o fato de eu amamentar a minha filha, nada, porque eu nunca imaginei…

 

Você se refere à foto de você amamentando que viralizou e sofreu críticas [postada em 2016 no Instagram]?

Tem uma expressão que diz: quem mal não tem mal não vê. Para mim era óbvio: tive quatro meses de licença e queria amamentar minha filha até o sexto. Nunca imaginei que o gesto de amamentar pudesse ter qualquer conotação sexual.

Até acho engraçado, porque eu era obesa até os meus 17 anos e daí, com 22, virei musa. Quando era para falar bem de mim intelectualmente, virei algo que nunca tinha sido na vida. Pô, gente, o meu peito é o de uma mulher que foi obesa, que está amamentando. Então, sinceramente, ninguém se exibiria mostrando este peito.

É até o contrário, as pessoas podiam dizer assim: “Poxa, ela deve amar muito a filha ou tem muita autoestima para mostrar esse peito assim”.

 

Quais serão suas prioridades se for eleita?

Tem muitos temas, mas todos eles passam por uma visão que a gente tem de que o golpe que tirou a Dilma da Presidência teve três características centrais.

Ele foi um golpe misógino: tinha ali um elemento de ódio às mulheres. Foi antidemocrático, basta ver que agora foi colocado não só que não havia crime de responsabilidade, mas também tem todos os elementos da não transparência do governo. E foi um golpe antinacional: houve a entrega do pré-sal, a ideia de privatização do nosso setor energético, que também é estratégico para o desenvolvimento.

A resposta, necessariamente, deve passar por essas três questões. Nós precisamos de um projeto que desenvolva o país, de um governo radicalmente democrático, com parede de vidro, e feminista.

 

Você apoia que Lula seja candidato. Quer concorrer com ele?

Para a gente, o debate sobre a candidatura do Lula não é um debate sobre o apoio ao Lula, embora nós o tenhamos apoiado nos seus dois governos. Para nós, é um debate sobre a democracia. Na nossa interpretação, o juízo ao qual Lula foi submetido é político, não existem provas contra ele.

Eu seria adversária dele e quero fazer a disputa no voto. Essa é a disputa que quem defende a democracia deve defender: nas urnas.

 

Manuela, por que você quer ser presidente?

Por quê? Tu tá tentando me pegar de surpresa assim? [risos]

Quero ser porque o Brasil pode ser um grande país. Olha as potencialidades do Brasil! Em qualquer dimensão que a gente olhe, do ponto de vista das reservas naturais, do ponto de vista ambiental, das qualidades e da diversidade do seu povo.

O Brasil é um país extraordinário para não ser justo com seu povo. O Brasil não precisa ser um desperdício, pode ser um sonho realizado.

 

Se você for eleita, vai querer ser chamada de presidenta?

Acho que existe uma carga simbólica no uso da palavra. A luta das mulheres é feita de dores. A dor de ser assediada, de sofrer preconceito, de ouvir que é incapaz intelectualmente.

Eu prefiro então ser chamada de presidenta, mas quero também fazer com que compreendam os porquês disso. Às vezes vejo mulheres maravilhosas com medo de se dizerem feministas, como se elas estivessem defendendo uma superioridade feminina ou declarando guerra aos homens. Isso é uma ignorância.

O feminismo defende que mulheres têm direitos iguais aos homens, que as pessoas não podem receber 30% a menos de salário por serem mulheres.

 

Manu D`Ávila

 (Luiz Maximiano/Revista VIP)

 

Tem gente que acredita que se declarar feminista é uma declaração de guerra contra o homem.

É, eu vejo isso todos os dias. Às vezes, as pessoas falam: “Ah, sua família é tradicional”. Depende, né? Tendo em vista que eu crio um enteado [Guilherme, 14 anos] e que meu marido tem a guarda, já não cabe no estatuto de família de alguns.

“Ah, a tua filha brinca de boneca?” É claro. O meu problema não é com relação às meninas treinarem para pegar crianças no colo, que é o brincar de boneca. O meu problema é os meninos não treinarem.

 

Como é seu marido como pai?

Ele divide todas as responsabilidades comigo. Lá em casa a briga é: “Eu que vou dar banho”. “Não, tu já deu ontem”. É o contrário.

 

Você assumiu um relacionamento com o ex-ministro José Eduardo Cardozo em 2008. Foi mais apoiada ou mais julgada?

Nossa! Eu fui absolutamente julgada. O Jean [Willys], que é meu amigo, sempre fala que ele é o primeiro gay assumido da Câmara. Então, o meu foi o primeiro relacionamento assumido da Câmara.

Tenho mandato desde os 23, sou alguém que sempre teve namoros longos. É normal alguém de 25 anos terminar um namoro e começar outro. Só que comigo não era. Não sei o que imaginavam, que meus votos tinham sido de castidade ou que eu deveria casar.

Foi uma fase bem difícil. E percebi muito as dimensões do machismo. Eu e o Zé namoramos três anos e ficamos grandes amigos. Até estou atrás desse voto. Pô, Zé… Tô atrás desse voto, viu?

 

Você tem amigos de direita? Consegue debater com eles?

Tenho e já foi mais fácil. Sou de uma família de cinco irmãos, então aprendi a necessidade de diálogo e o respeito à diversidade. Mas ficou mais difícil porque existe hoje um ambiente de muita intolerância e preconceito, e para mim algumas coisas não são opiniões.

Por exemplo: não tenho amigos que defendem a tortura. Para eles: não, obrigada. Não tenho razão para me relacionar com gente assim. Posso ter amigos que divirjam de mim sobre o papel do Estado, reforma agrária, monopólio de mídia, mas não sobre parâmetros que fazem a civilização chegar aonde chegou.

 

O que é ser do PCdoB depois de quase 30 anos em que o muro de Berlim caiu e parece que o medo do comunismo recuou a níveis de 1960 e pouco?

No Brasil, as pessoas têm essa tendência de achar que no mundo há um bolo que tem uma receita, e que a gente pode copiar um país no outro abstraindo as condições da história desse país, do seu povo, as características sociológicas, antropológicas, culturais.

A primeira questão então é: eu sou comunista no Brasil. E nós queremos construir o socialismo com a cara do Brasil. Não temos modelo porque o Brasil é um país único justamente por suas singularidades.

Segundo: queremos que o Brasil se desenvolva e seja justo. Ser comunista é defender a justiça social, compreender que o ser humano tem essa massa cinzenta maior do que a dos outros animais e pensamento crítico, e que ele não precisa ser o lobo do próprio homem.

Ninguém nunca vai conseguir me explicar racionalmente como acham que deu certo um sistema que tem tanta desigualdade. Acredito no ser humano – acho que isso é o centro do que me faz ser comunista.

 

E o que passa pela sua cabeça quando alguém defende a ditadura?

Acho que a crise gera medo nas pessoas. Quem tem que botar comida na mesa para filho comer tem medo. A violência também gera medo. O que algumas candidaturas tentam fazer? Organizar esse medo e transformá-lo em ódio.

O meu inimigo passa a ser tu, porque eu preciso de um emprego e tu também – e tu está me dizendo que quer o emprego porque é mulher? Que droga de papo é esse? Como assim quer cotas na universidade?

A gente precisa falar que a saída para a crise não é o ódio, e sim o debate sobre o desenvolvimento do país, a economia. É lamentável que pessoas que acham que o estupro é algo que pode ser aplicado a algum tipo de mulher, dependendo da estética dela, tenham qualquer performance numa pesquisa eleitoral [o deputado Jair Bolsonaro disse em 2014 que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada porque é “muito feia”].

Alguém que achava ok colocar um rato na vagina de uma mulher? Gente, essa foi a tortura no Brasil, a gente precisa falar sobre as coisas.

 

Quais são seus prazeres?

Adoro ficar com a minha família. Meu marido inventa muitas coisas, ele é paraquedista, velejador. Eu saltei de paraquedas esses dias. Ele voltou a saltar, eu disse: “Então vou saltar também”. Também gosto muito de comer, então cozinho. Leio muito, sempre, por prazer, trabalho e estudo. E faço ioga.

 

Você foi obesa. Como foi esse período?

Ah, pesei mais de 100 quilos. Fiz reeducação alimentar e emagreci muito. Mas herdei – e me dei conta disso mais tarde – um transtorno de imagem, que é uma das coisas mais comuns sobretudo pelo estímulo que a mídia gera nas mulheres, com corpos perfeitos. Decidi enfrentar de uma forma mais incisiva esse transtorno e meu tema de tentar me manter magra.

 

E você já foi acusada de gordofobia por isso?

Fiz uma brincadeira um dia [em rede social] comendo um negócio e dizendo: “Depois não sei por que eu ganho peso”. E uma pessoa me falou sobre isso. Veja bem: fui gorda durante muito tempo e tinha a autoestima muito elevada. Fui uma gordinha empoderada.

Mas fiz regime, reeducação alimentar, era muito jovem e acabei emagrecendo porque não tinha aí nenhum componente a mais além de comer muito. Esse é um tema bem mais sério para as mulheres do que as pessoas acham, a forma como nos julgam a partir do nosso corpo e como existe toda uma indústria que se sustenta a partir de uma magreza inalcançável – e isso gera doenças mesmo.

 

Você gosta de beber? De um vinhozinho?

Fiquei todo o tempo que estava em Brasília sem beber nada, porque era um saco. Uma vez me fotografaram com um copo de cerveja e parecia que eu era uma bêbada. Aí cansei disso e notei que meu rendimento melhorava. E agora eu e meu marido começamos a beber, já velhos.

O meu estado produz ótimos espumantes. Pernambuco também. Então bebo mais espumantes do que vinho. Mas são brasileiros – é bom falar sobre isso. As pessoas acham que espumante é uma coisa cara. O Brasil produz excelentes espumantes com preço bem bom. Pego 20 reais uma garrafa.

 

Manu D`Ávila

 (Luiz Maximiano/Revista VIP)

 

Mulheres fortes assustam os homens. Como você e o Duca se conheceram e quem chegou em quem?

Ele chegou em mim. Ele vai dizer que eu é quem cheguei nele – e é uma mentira [risos]. Ele diz que só estava elogiando o meu trabalho. Tava nada. Foi ele quem me mandou uma mensagem pelo Face[book].

Ele começou falando do meu trabalho, que achava muito legal. O Duca é um cara massa. Acho que ele é o homem menos machista que já conheci na minha vida. Inclusive faz eu rever machismos meus.

 

Por que você decidiu se casar se estava com ele há seis anos?

Porque é massa. Porque eu queria casar com a música que ele fez para mim. Não, tô brincando [risos]. Porque eu achei legal, num tempo de ódio, celebrar o amor. É um ato subversivo. O Duca teve muitas perdas na vida [o pai, o irmão e o melhor amigo] e ele criou em mim a ideia de que a vida precisa ser vivida no presente.

 

Você gosta de que tipo de música?

Sou eclética. Ontem, no avião, escutei Gal Costa, Caetano, uma música nova do Duca, que ele fez para a nossa filha, e Chico César. Na adolescência gostava de heavy metal. Gosto muito de rock britânico e de rock gaúcho. Também adoro samba.

 

Você muda o cabelo toda hora. É vaidosa?

Tu acha que é por isso? Adoro cortar cabelo, é a forma mais fácil de se reinventar.

 

Dá para ser comunista e vaidosa?

A liberdade de ser o que quer tem a ver tanto com o fato de eu ser comunista como de eu ser feminista. Tem muito padrão estabelecido no mundo, não se permite que as pessoas sejam quem querem. E não sou muito vaidosa, me cuido para ser um pouquinho. Furei a orelha só com 22. Passei a faculdade de calça preta, camiseta de banda e tênis. Um sacrifício foi usar salto, eu já era deputada.

 

Tem feminista que é contra a depilação. Você é?

Eu sou contra impor qualquer padrão estético para qualquer mulher, então eu compreendo quando falam que é imposto que as mulheres têm que depilar. Mas, sinceramente, defendo que as mulheres sejam livres. Se elas estão a fim de se depilar, que se depilem, assim como os homens. Eu me depilo. Eu tenho um problema com os pelos.

Qual sua relação com consumo, com moda?

Não sou muito ligada à moda, uso coisas mais básicas. Mas tenho tido acesso a muitas coisas legais produzidas no Brasil e tentado valorizar mulheres que conseguem viver a partir da produção de moda. E tenho tentado me atualizar um pouco sobre os debates relacionados à indústria da moda, aos temas do trabalho escravo, da poluição.

 

Quem é o homem mais bonito do Congresso?

A coisa mais bonita que alguém pode ter é o sorriso, e o sorriso mais bonito de lá é o do maior amigo que fiz nesses anos, o Jean Wyllys.

Texto: Cláudia de Castro Lima
Fotos:
Luiz Maximiano

Beleza: Mauro Marcos