Papo Reto: J.R. Duran, o fotógrafo das maiores beldades do país

Ele acorda às 6 da manhã, tem apenas três calças, não faz exercício físico, gosta de negroni e detesta cavalos no set

J.R. Duran

 (J.R. Duran/Divulgação)

Quando chego ao Bistrô Charlô, na região dos Jardins, em São Paulo, local escolhido por Josep Ruaix Duran para esta entrevista, o garçom logo avisa: “O sr. Duran esteve aqui ontem e pediu para que eu reservasse esta mesa, próxima à janela”.

Peço para trocar a mesa para uma mais reservada por causa da gravação e o garçom não resiste: “A senhora vai entrevistá-lo? Ele é muito gente boa, educado. Gosta de salada e às vezes pede um negroni”.

Confirmo e questiono o que ele gostaria de perguntar ao fotógrafo. A resposta é uma só: “Ah… Eu queria saber se ele já se envolveu assim… com aquelas mulheres da TV”.

Autor de nove dos dez ensaios mais vendidos da Playboy, Duran habita o imaginário masculino como um bon-vivant sempre cercado de beldades nuas.

Juntas, elas contabilizam 8 milhões de exemplares vendidos. Um número que ajuda a entender a fama e a quantidade de seguidores que tem nas redes sociais: 94,2 mil no Instagram e 151 742 no Twitter, até o fechamento desta matéria.

Na prática, o espanhol que deixou uma Barcelona sob a ditadura do general Francisco Franco, aos 18 anos, acorda às 6 da manhã todos os dias, lê dois jornais, edita, escreve e fotografa uma revista sozinho.

Já publicou seis livros de fotografia, três romances e um livro com as aquarelas em que pinta quartos de hotel. Sem falar nas centenas de campanhas publicitárias e eleitorais.

Duran chega pontualmente, pede para o garçom acender o abajur logo ao lado. Arruma a luz, me entrega um envelope com o último exemplar da Revista Nacional e chama o garçom: “Para mim uma salada de figos”. “Vai querer seu negroni, sr. Duran?” “Hoje não, obrigado.”

Espero o garçom servir a sobremesa para fazer a pergunta que ele havia encomendado. Duran responde e o rapaz arregala os olhos enquanto me esboça um sorriso discreto.

 

Você escreve, desenha, fotografa e edita a Revista Nacional. Por que criar uma publicação que fala do Brasil?

Eu tinha voltado de uma viagem à Etiópia e no avião me toquei que tinha fotografado tribos em lugares distantes, mas nunca um índio no Brasil.

Queria registrar indígenas isolados, mas tinha que ter uma desculpa para a Funai liberar.

Os índios foram a primeira capa da Nacional e depois eu comecei a explorar grupos de pessoas como os policiais, os intelectuais, os políticos, essa coisa toda.

Acho que ninguém produziu um material tão vasto sobre o país. Dez revistas com 1 444 páginas sobre o Brasil. Agora vou fazer um número internacional.

 

Por que agora você resolveu olhar para fora?

O Andy Warhol inventou a Interview porque queria ir às festas. Eu precisava de uma plataforma para poder ligar para as pessoas e convidá-las a ir até o estúdio sem parecer louco.

A fotografia sempre foi uma desculpa para que eu pudesse conhecer gente. Agora tenho a oportunidade de fazer isso fora do país e não vou deixar passar.

Barbara Evans e J.R. Duran J.R. Duran clicou Barbara Evans para a revista The President em agosto de 2016.

J.R. Duran clicou Barbara Evans para a revista The President em agosto de 2016. (J.R. Duran/Arquivo Pessoal/Reprodução)

Você focou no Brasil por que percebeu que ninguém fazia isso aqui ou foi por uma curiosidade de estrangeiro?

Nunca na vida pensei nos outros. Tudo o que faço é porque eu acho que tenho que fazer.

Eu sou um fazedor. Tenho que fazer alguma coisa para manter a sanidade mental. Então eu apenas faço.

 

Você sonhava em ser outra coisa durante sua infância na Espanha, nos anos 60 e 70?

Eu sonhava em estar nos lugares, em falar com um cara que rema na África, com uma loira que não conhecia.

Nunca me vi numa profissão, nunca me vi em porra nenhuma, só fui seguindo o flow. E aí um dia eu percebi que existia uma coisa especial com a fotografia.

 

Em que momento você notou que ia viver disso?

Quando ganhei dinheiro para comprar um carro. Aí eu percebi que a vida podia ser boa.

Porque tudo tem que ter uma compensação. Não adianta querer ser uma coisa e morrer de fome.

É a lei da selva, a lei da vida, senão você vira um idealista e não acontece nada.

 

Que carro era?

Um Fusca, que na época eu deixei parado na Rua Haddock Lobo estacionado ao contrário, porque eu fazia umas cagadas imensas no trânsito.

Então um cara bateu no Fusca, mas como estava estacionado na contramão não pude resgatar o seguro.

 

Como era a vida com a sua família na Espanha?

Meu pai era um industrial que quebrou no fim dos anos 60 e veio para o Brasil tentar a sorte.

Cheguei aqui no dia 13 de janeiro de 1970, tinha 18 anos.

 

A Espanha era um país bem fechado. Você teve criação rígida?

Estudei em colégio jesuíta, mas não achava ruim. Na Espanha todo mundo é católico, mesmo quem não é.

A escola religiosa é importante para você entender o rigor do mundo. Ainda mais porque a Barcelona nos anos 60 era chatérrima.

 

Você sofreu por ter de mudar de país?

Nem um pouco, eu achei genial.

Sou duas vezes imigrante no Brasil, eu vim da Espanha para cá, depois fui morar nos Estados Unidos e voltei a morar no Brasil.

Optei duas vezes por este país.

Regina Krilow e J.R. Duran J.R. Duran clicou Regina Krilow para “La Rouge Belle” em fevereiro de 2016.

J.R. Duran clicou Regina Krilow para “La Rouge Belle” em fevereiro de 2016. (J.R. Duran/Arquivo Pessoal/Reprodução)

Como foi crescer na ditadura espanhola de Franco e depois mudar para um país que também estava vivendo outra ditadura?

Quando cheguei achava inacreditável a liberdade que existia no Brasil.

Lembro que na Espanha tinha um negócio chamado garrote vil, as pessoas eram esganadas como na Inquisição, era muito mais pesado.

Me lembro que em 1982 o Jornal da Tarde publicava umas caricaturas do Maluf com o nariz crescendo e eu pensava: como é que esses caras ainda estão vivos?

 

Você nunca se envolveu com militância mesmo tendo vivido duas ditaduras?

Aqui a ditadura era nova. Na Espanha eu vivia em Barcelona, território dos republicanos que tinham perdido a guerra.

Era uma atmosfera de muito medo. Os lugares que eu frequentava não tinham inquietude, todo mundo pensava que as coisas iam mudar quando Franco morresse, e ficaram esperando até 1975.

Quando cheguei ao Brasil existia militância, mas me envolvi com outra turma, optei por um caminho mais hippie.

 

Você era da paz e amor livre?

Sempre fui um cara que não pertencia a nenhuma turma.

Eu era pobre para andar com ricos, e era rico para andar com os pobres. Sempre me senti num limbo social.

Na mesma noite ia de uma festa bacana nos Jardins a um samba na Camisa Verde e Branco.

Sempre gostei de transitar no hi-low, senão é a mesma coisa que literatura, você acaba lendo só acadêmicos e vive numa bolha.

 

E como foi sua relação com as drogas?

Nunca foi a minha, não gosto da ideia de perder o controle. Até álcool eu bebo pouco.

 

Você teve uma criação machista?

Aos 15 anos eu saía de casa, pegava trem para outras cidades, voltava às 6 da manhã, e ninguém perguntava aonde eu tinha ido.

Tinha que ser bem-educado à mesa, com os mais velhos, chegar na hora certa, honrar a palavra e estudar, mas eu era péssimo aluno. Não existia cobrança nenhuma.

 

Nem em relação a mulheres?

Nenhuma, nunca tocavam nesse assunto. O ensino era ruim, a educação era ruim, era tudo ruim.

A preocupação naquela época era sobreviver.

Sabrina Sato e J.R. Duran J.R. Duran clicou Sabrina Sato para a “Rev.Nacional” em dezembro de 2014.

J.R. Duran clicou Sabrina Sato para a “Rev.Nacional” em dezembro de 2014. (J.R. Duran/Arquivo Pessoal/Reprodução)

Com o que você gasta seu dinheiro hoje?

Livros, viagens e a revista. Tenho dois relógios, três calças e uso tudo até acabar.

Obviamente nunca compro porcarias. Tenho a mesma caneta há 15 anos. Só troco de carro a cada dez e vivo muito bem assim.

 

Você escreve, desenha, fotografa, edita uma revista… Qual dessas atividades desperta mais prazer?

Na vida você pode fazer coisas por prestígio ou por dinheiro. Se você faz alguma coisa por muito prestígio e pouco dinheiro, isso te dá prazer.

Se você faz coisas por muito dinheiro e pouco prestígio é problema.

Se você faz coisas por muito prestígio e muito dinheiro, genial, mas é muito raro. Então, aprendi com caras como o Kirk Douglas a fazer blockbusters que me possibilitem fazer arte depois.

Uma revista por prestígio num dia e a campanha de perfume que é complicadíssima, mas paga bem, no outro.

 

Durante anos você fotografou as maiores beldades do país nuas. Não sente falta dessa rotina?

Como diria o padre Quevedo, isto “no existe”, “es una alucinación”. Meu acordo com a Playboy era de fazer seis ensaios por ano.

Cada matéria exigia três dias de trabalho. Isso quer dizer que eu só fazia isso durante 18 dias no ano todo. Eu fotografo mais nu agora do que antigamente.

O que acontece é que fotografei nove das dez capas mais vendidas da história da Playboy, e que essas nove pessoas juntas somam 8 milhões de exemplares vendidos.

Então as pessoas acham que vivo numa praia deserta com mulheres peladas todos os dias.

Esquecem que no cotidiano sou um cara que acorda cedo, que faz mil outras coisas.

O glamour “no existe”, mas existe o que se formou, o que eu criei, deixei correr, um personagem.

 

Você já pediu para fotografar alguma mulher na Playboy?

Não, pelo contrário. Teve uma que eu não queria fotografar, mas não posso te falar quem era, claro.

Sempre fui muito organizado, profissional, e para mim missão dada é missão cumprida.

Eu podia não gostar da fulana mas meu trabalho era achar uma maneira de otimizar a fulana para o cara vender.

Para mim todo trabalho é final de Copa do Mundo.

Nanda Costa e J.R. Duran J.R. Duran clicou Nanda Costa para a “revista Playboy” em maio de 2013.

J.R. Duran clicou Nanda Costa para a “revista Playboy” em maio de 2013. (J.R. Duran/Arquivo Pessoal/Reprodução)

Qual foi sua primeira capa de nu?

A Alcione Mazzeo, que era casada com o Chico Anysio.

 

Você ficou confortável no set de nu desde a primeira vez?

Já tinha visto mulheres nuas várias vezes, ainda bem.

Tinha planejado o que fazer e sabia o que não podia fazer. Graças a Deus eu tenho uma bagagem visual, cultural, de cinema, tudo isso que os novatos de hoje não têm.

Meu pensamento no set de nu sempre foi o seguinte: como vou fazer os caras ficarem com inveja de mim?

 

Mas como foi lidar com a vergonha delas na hora de tirar a roupa?

Vergonha? Que vergonha? A foto não é um momento de sedução, não é que encontrei alguém aqui, conversei, disse: “Oi, tudo bem? Quer ir lá fazer umas fotos?”.

Não tem clima, não tem música, não tem bebida. Tem negociação, cachê, contrato.

 

Os leitores imaginam que você se relacionou com várias daquelas mulheres. Quanto disso é verdade?

Aí você vai ter que comprar minha biografia. Se eu falar que foram 24, o cara vai dizer: “Porra, só 24?”. Se eu falar que foram 150, o cara vai dizer: “Não, mas ele fotografou 160!”.

Então isso não existe. Quando comecei a fotografar nu planejei uma trajetória para mim como fotógrafo, então tinha que ter um procedimento para fazer fotos boas.

Agora se depois da foto tocar o telefone…

 

O sedutor então é um personagem?

O que seduz são os 500 paus que a mulher vai ganhar. Meu papel é não mostrar uma foto ruim.

De cara já pergunto o que ela não gosta nela e o que gostaria de fazer. Não perco tempo insistindo em algo que não vai deixá-la à vontade.

Cleo e J.R. Duran J.R. Duran clicou Cleo Pires, no set de filmagem, para a revista “Estilo” em novembro de 2010.

J.R. Duran clicou Cleo Pires, no set de filmagem, para a revista “Estilo” em novembro de 2010. (J.R. Duran/Arquivo Pessoal/Reprodução)

Existe um biótipo que você mais gosta de fotografar?

O jogo é no olhar, não no corpo. O olhar diz se aquela foto é uma merda ou é boa.

Mas mulheres que não seguem um padrão helênico de beleza tendem a ter personalidade e isso é interessante.

O segredo é o olhar na câmera.

 

É verdade que você fotografou uma filha do Fidel Castro e esse ensaio nunca foi publicado?

Verdade. Foi uma operação de guerra para fazer tudo escondido em Roma, mas essas fotos nunca saíram porque ela era uma senhora que não sorria.

Disse que não gostava de sorrir e sem sorriso não dá certo. Rasgamos os contratos e pronto.

 

O que ninguém sabe sobre os seus ensaios de nu?

Que é muito difícil. Que são muitas variáveis e eu ainda perco o sono.

Você tem que estar muito ligado psicologicamente nas pessoas, no time, na coisa que vai ser feita, na história, na mulher…

 

Já aconteceu alguma coisa bizarra no seu set?

Já aconteceu absolutamente de tudo. No ensaio da Claudia Raia alguém falou que tinha que ter um clima de beduínos e mulheres de lenços com cavalos nas dunas de Cabo Frio.

Quando o cavalo chegou ela disse que tinha medo, que não ia fotografar. Eu não dou sorte com cavalo. Se tem cavalo no set já sei que a foto vai complicar.

Não gosto de fotografar com animais porque acho que o animal tem uma energia que é só dele, não pode competir.

 

Você tinha uma fama de explosivo no estúdio. A idade melhorou isso?

O negócio é o seguinte: para construir uma ponte é preciso ter estudado engenharia. Mas no negócio da produção de fotos muita gente está lá sem nunca ter estudado.

O cara tem que entrar no estúdio sabendo que se ele falar merda vai tomar um choque, só isso.

No estúdio eu sou o capitão de um navio com mais de 20 pessoas a bordo.

Quando estou fazendo publicidade tenho um cliente ali para acompanhar tudo comigo, ok.

Mas em um ensaio assinado por mim ninguém tem que dar palpite porque estou concentrado em fazer com que aquela mulher fique no mínimo radiante.

Thaila Ayala e J.R. Duran J.R. Duran clicou Thaila Ayala para a “revista Criativa” em agosto de 2009.

J.R. Duran clicou Thaila Ayala para a “revista Criativa” em agosto de 2009. (J.R. Duran/Arquivo Pessoal/Reprodução)

É verdade que você não gosta de falar seu nome completo por superstição?

Quando comecei a assinar fotografias queria achar um nome marcante.

Na época o pai da Donata Meirelles era um jogador superplayboy, tinha não sei quantas mulheres, e assinava P.G. Meirelles.

Aquilo ficou na minha cabeça porque era uma coisa que já acontecia nos Estados Unidos.

Mas basicamente foi porque eu pensei que duas iniciais e dois pontos ficariam mais evidentes dentro do bloco de colaboradores da edição.

A coisa da superstição foi brincadeira que inventei para encurtar a história.

 

Você é supersticioso?

Só ponho o pé direito na frente para subir a escada ou antes de cruzar a porta.

Calço o sapato direito antes do esquerdo e não gosto de cavalos nas fotos.

 

Como você se cuida fisicamente para aguentar tantas viagens e trabalho?

Não malho, não faço nada, mas fotografar é uma bela atividade, não sou um cara sedentário.

Sobe escada, desce escada, carrega peso… E eu me alimento muito bem.

 

Você está com 65 anos. Enve­lhecer o preocupa?

Se eu não tivesse me divertido tanto até hoje estaria mais preocupado. Tem gente que chega na minha idade e tenta recuperar o passado.

Não sou um cara que come bosta, não cometo excessos, mas consigo apreciar as coisas boas da vida. Estou um pouco acima do peso, mas tudo bem.

 

Quantas línguas você fala?

Bem mesmo, nenhuma. Falo seis e escrevo em cinco. Catalão, espanhol, inglês, português, francês e italiano.

Ler os originais nessas línguas mudou minha vida. Gosto de livro na língua original e no papel, nada de digital.

 

Já vi você falando mal do Insta­gram, mas você criou um perfil na rede. O que mudou?

Percebi que o Instagram podia ser uma forma de mostrar às pessoas como eu vejo o mundo, e não as minhas fotos.

Posto imagens de pesquisas que estou fazendo, sempre em múltiplos de três para cada tema.

Também nunca posto selfies porque meu braço é curto e porque… enfim… Não é o caso.

Thomaz de Oliveira e J.R. Duran J.R. Duran clicou Thomaz de Oliveira acompanhado Veronica Salim em fevereiro de 2012.

J.R. Duran clicou Thomaz de Oliveira acompanhado Veronica Salim em fevereiro de 2012. (J.R. Duran/Arquivo Pessoal/Reprodução)

Já no Twitter você é bem ativo.

No Twitter é diferente, lá posso sacanear as pessoas, no bom sentido. Se a Fórmula 1 vai ser em Mônaco, pego várias fotos de lá no meu arquivo e posto, e o povo pensa que estou nos barcos.

Se você quiser saber o que eu faço compre a Revista Nacional, se quiser saber o que eu vejo vá ao meu Instagram e se quiser saber como eu penso olhe o meu Twitter.

 

Você é casado e tem uma filha mulher, certo?

Não falo de mulher, não falo de filhos, não falo de nada disso para evitar histórias.

 

É verdade que você pilota helicóptero e compete no Rally dos Sertões?

Parei antes de tirar o brevê, mas tenho 150 horas pilotadas. Não queria pilotar de fato, só queria aprender.

O rali eu fiz duas vezes. Uma revista me chamou para fotografar e eu pensei naquela poeira toda e achei melhor dirigir.

Na segunda vez que competi cheguei em quinto lugar entre os profissionais e no sétimo no geral.

 

Passou pela sua cabeça ter um helicóptero?

Está louca? O que eu vou fazer com um helicóptero? É a mesma coisa que ter um barco, piscina, tudo caríssimo.

 

Você já tem três livros publicados. Por que começou a escrever?

Gosto de desafios. Escrever o primeiro foi um ato de me desafiar, e aí gostei.

 

É verdade que você escreve cartas para você mesmo quando viaja?

É, eu uso papel timbrado dos hotéis nos quais me hospedo. Nunca abri nenhuma. Tudo que eu faço é memória, a Revista Nacional é memória, os livros são memória, as fotografias são memórias, as aquarelas com desenhos dos quartos de hotel que eu pinto.

Agora na mão de quem vai cair isso não sei. Talvez eu morra e elas continuem lá fechadas.

 

Como é a sua rotina?

Acordo todo os dias às 6 horas da manhã. Talvez durma mais um pouco aos domingos se não tiver Fórmula 1.

Não sou da noite. Pela manhã meus pensamentos e fantasias giram mais.

Preciso de uma hora e meia para ler os jornais.

Não sinto minha profissão como um fardo, então não tenho hora para começar e hora para acabar de trabalhar.

 

Falando em político, você já recusou fotografar alguém porque não concordava com suas ideias?

Nunca tive que dizer não. Teve eleição que já aconteceu de fotografar três candidatos e todos sabiam.

 

Fotografaria a campanha do Bolsonaro?

Hum… Hoje o cenário está tão polarizado e tem gente falando tanta besteira…

 

Tem alguém que você está querendo fotografar no momento?

Tem. Um é um cantor que não topou. Fico tentando, tentando… Insisti também com o Joaquim Barbosa.

Comecei a pedir quando ele ainda era ministro.

Outro que eu gostaria é o Sebastião Salgado, mas existe alguma barreira intransponível, não consigo chegar até ele.

 

Já fez nu masculino?

Homem pelado? Como assim? Por qual motivo?

 

Para fazer uma bela foto.

Não é confortável, é impensável, é inominável, é… Por que eu vou querer ver um cara pelado com tanta mulher interessante nesse mundo?

Luciana Gimenez e J.R. Duran J.R. Duran clicou Luciana Gimenez para a “revista IstoÉ Gente” em setembro de 2014.

J.R. Duran clicou Luciana Gimenez para a “revista IstoÉ Gente” em setembro de 2014. (J.R. Duran/Arquivo Pessoal/Reprodução)

Quem você gostaria que fizesse seu retrato para esta matéria?

Quem eu queria já morreu, Irving Penn, Richard Avedon.

Se fosse uma pintura ia querer o Francis Bacon.

 

E se eles perguntassem o mesmo que você pergunta para as mulheres que fotografa: o que você não quer fazer e o que você não gosta em você?

Eu responderia o que muitas mulheres já me disseram: “Faça o que você quiser”.

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