Esportes, Perfil

Tite: “Neymar é um extraclasse. Com a maturidade, vai se tornar número um”

(Daryan Dornelles/Revista VIP)

Quarto gaúcho a comandar o Brasil numa Copa, Tite tem uma longa relação pessoal com o torneio.

Desde o menino Adenor, em Caxias do Sul, até o jogador que nunca vestiu a amarelinha e o treinador que se aperfeiçoou para chegar a um cargo fiscalizado por 208 milhões de técnicos.

Ele recebeu a VIP na sede da CBF, no Rio de Janeiro. Falou dos mundiais que viu e do preparo para a campanha na Rússia.

Organizamos cada época como as etapas de uma Copa

 

Eliminatórias: O menino Adenor

(Montagem/VIP/Reprodução)

“A primeira Copa do Mundo de que tenho lembrança é a de 70. Não tínhamos televisão na minha casa, a menos que eu me engane muito.

Eu assistia na casa de um amigo meu ou em algum local público.

Mas era muito pelo rádio.

E no rádio tu cria as jogadas, as narrativas.

Na imaginação, eu criava que tipo de jogada foi a do Tostão metendo uma bola para o Clodoaldo infiltrar e fazer o gol, com o Brasil perdendo para o Uruguai de 1 a 0.

Ou como era a subida do Pelé para o cabeceio para finalizar contra a Itália… Isso tudo ficou muito no meu imaginário.

Essa emoção gerada em 70 foi muito marcante.

Para o garoto, o Brasil campeão confirma o grande futebol apresentado.

E tu assistiu a Pelé… Pelé é um extraterrestre, nada se compara.

Comparar Pelé com qualquer outro atleta é, para mim, uma análise muito pequena. Ele é atípico, é fora dos padrões normais, tanto técnicos como físicos. Essa é a primeira emoção.

Depois, lembro de 74 um pouco só, pela grande Holanda”.

 

Primeira fase – Jogo 1: O jogador Tite

(Lance/Reprodução)

“Lembro muito de 82.

Porque, para mim, a seleção de 82 foi a minha campeã.

Eu já jogava profissionalmente, tinha 19, 20 anos. Já compreendia o futebol, já tinha o fascínio da possibilidade da análise.

Já tinha comigo que grande meio-campo é o meio-campo de talento, de criatividade.

Tu pega Sócrates, Zico, Falcão e Cerezo e tem uma gama de atletas com um talento extraordinário… Perdemos para uma outra grande seleção [a da Itália] que estava num momento mágico, que se afirmou e foi crescendo.

Mundial é um torneio, e não um campeonato. Num dia em que tu não está inspirado, que comete uma falha ou outra, o outro te vence, como foi o caso.

Mas aquela seleção brasileira foi muito emblemática. Pela forma como criava, como agredia”, conta.

 

Primeira fase – Jogo 2: Treinador em formação

(YouTube/Reprodução)

“Tu começa a ser analítico conforme passam as etapas.

A partir de 90, eu já era técnico. Aí tu começa a analisar de outra forma. Sistema, posição, função exercida, organização, se um time é mais agressivo ou mais reativo…

Tu busca um olhar para aprender ou mesmo só para dar pitaco tal qual todo brasileiro [risos]. ‘Ah, seria melhor assim, assado…’

Tenho análises de 94 e 98 que não escrevi, mas gravava todos os jogos.

O Matheus [filho de Tite] era meu escudeiro.

Quando eu não estava, ele gravava. Na época, eram fitas de videocassete. Ele tinha 6 anos e disse quando eu ia sair: ‘Pai, vou gravar o jogo pra ti’.

E era Arábia Saudita e Marrocos, jogo bravo, os dois eliminados… Pelo carinho dele de querer fazer isso, nem falei nada. Depois vi o jogo e pensei: ‘Esse daí nem precisava’.

Mas ele já participava, ficava revendo jogos, acompanhava. Mal sabia eu o que estava alimentando… [hoje Matheus Bachi é auxiliar técnico e analista de desempenho da seleção brasileira]”.

 

 

Primeira fase – Jogo 3: O técnico da seleção

(YouTube/Reprodução)

“Nas últimas três Copas do Mundo, fiz análises escritas de todas as equipes. De sistema, características técnicas e estratégias.

Não porque eu pensasse em ser o técnico [numa Copa], mas porque me dava prazer. São uns 10 ou 12 cadernos com anotações.

No processo de me reinventar e me adaptar a uma nova realidade [de técnico da seleção], eu precisava de informações daqueles profissionais que aqui estiveram.

Acho que foram quatro visitas ao Zagallo, extremamente significativas. Ele tem uma energia muito própria. É um iluminado, tu fala com ele e parece que clareia tudo em volta.

E o Zagallo em 70 já era um visionário de conhecimentos táticos, marcava por setor.

Até brinquei com ele que fui beber na fonte para ver como é ser técnico da seleção e trabalhar com essa pressão toda.

Ele olhou para mim e disse: ‘Mas você já ganhou tudo, já construiu uma carreira…’.

Eu disse que clube é uma coisa, seleção é outra.

(YouTube/Reprodução)

Ele colocou a importância de encarar toda essa mídia que fica em cima e ser o mesmo cara, com simplicidade, com convicções, com respeito. Tudo que se faz [na seleção] toma uma dimensão muito maior.

Já o Vanderlei Luxemburgo passou pelas eliminatórias [oito jogos em 2000], que é onde eu estava naquele momento muito difícil [Tite assumiu em 2016 quando o Brasil era 6º e ficaria fora da Copa].

Me lembro de uma observação que ele fez: ‘Não prepara a equipe para o mundial, para depois. Fica atento à eliminatória exclusivamente’.

Tu busca esses profissionais com conhecimento muito grande e se alicerça. Também busquei intercâmbio com os técnicos dos atletas convocados.

Com Muricy e Dorival Júnior, que trabalharam com Neymar. Com os mais jovens como Roger [Machado, do Palmeiras] e Carille [do Corinthians].

E também posso ligar para o Klopp do Liverpool, o Conte do Chelsea ou o Zidane [do Real Madrid] para falar dos atletas, da forma em que estavam, das situações importantes que viveram”.

 

Oitavas de final: O professor e o craque

(Getty Images/Reprodução)

“Neymar é um extraclasse.

É fora dos padrões. Ele é dotado de capacidade de improviso impressionante, faz coisas que tu nem imagina.

Por isso ele é diferenciado e está no top 5, no top 3. Com a maturidade, vai ser inevitável tornar-se número 1.

Ele fez 26 anos agora.

É só se reportar a quando a gente teve 25, 26 anos para saber que não é só importante ter nossa atividade profissional.

A gente precisa ir a uma boate para dançar. Eu fui para boate dançar! Porque a gente precisa ter nosso momento livre. Mas quando ele vai, tem 350 milhões de pessoas fotografando e buscando [na internet].

Quem de nós, aos 26, não queria ter um tempo para dar uma namorada, ir a uma boate, tomar um negocinho?

Por ser competitivo, às vezes ele se irrita de forma muito fácil com o adversário e com o árbitro.

Está errado e ele precisa evoluir. Me sinto à vontade porque não falo para a imprensa sem antes ter falado para a pessoa.

(CBF/Divulgação)

Já falei para ele: ‘Tu dá margem porque dá ibope as pessoas falarem de ti em vez de falar do árbitro que errou ou do cara que te deu pancada. Transfere para eles a responsabilidade. Fica quieto. Aí vão ver que o árbitro deixou de coibir a violência, que o cara fica toda hora batendo em ti e não toma cartão. Fica quieto e vai jogar’.

Preciso ter cuidado para não tirar dele a coragem, a agressividade [com a bola].

Mas, ao mesmo tempo, conduzi-lo para que não tenha comportamentos que possam ser melhorados.

Neymar compreende que cada um de nós tem que assumir uma responsabilidade.

O técnico tem que assumir sua responsabilidade. O Marcelo, o Miranda, o Marquinhos têm que assumir as suas.

E não ficar pensando: ‘Ah, o Neymar vai resolver para nós e fica fácil para mim. Bota no colo dele que, quando o resultado não vem, foi nosso principal atleta quem não resolveu’.

Temos que trabalhar enquanto equipe. Não é ele quem vai ser ‘o cara’ quando vencermos nem culpado [se perdermos]. Mas ele pode vir a se tornar o melhor do mundo se a equipe estiver forte”.

 

Quartas de final: A Copa pós-7 a 1

(Wikipedia Commons/Reprodução)

“Olha aqui o fantasminha, ó [Tite pega um saco plástico que estava próximo e agita no ar].

A gente convive com esse fantasminha aqui [da goleada sofrida contra aAlemanha em 2014]. É outro momento, outra circunstância.

Aquele resultado foi 7 a 1 para eles? Foi. Eles foram melhores, foram campeões. E daí? Daí que agora é outro trabalho. Vamos construir essa outra história.

[Fazer amistoso contra os alemães em março último] É uma preparação emocional também. E vamos encarar de forma natural, sem dramatizar…

Em 2002, foi 2 a 0 [para o Brasil na final com a Alemanha] e podia ter sido 5. É do jogo.

O futebol não é matemático. A gente conseguiu reconduzir todo o trabalho e hoje ter alguns atletas importantes com maturidade, com experiência de seleção.

E eu com a experiência de um campeonato mundial [de clubes, com o Corinthians em 2012]”.

 

Semifinal: Os adversários

(Wikipedia Commons/Reprodução)

“A Suíça joga com linha de cinco, por vezes com linha de quatro [formações de defesa].

Tem o Lichtsteiner [jogador da Juventus da Itália], o Xhaka, que é meio-campista do Arsenal [da Inglaterra], que são os principais valores. Tem uma marcação forte.

O senso criativo ainda fica devendo, mas é uma equipe que pouco erra. E tem um retrospecto importante em Copa.

Em 2010, foi a única que venceu a Espanha campeã. Lembro da manifestação do Del Bosque [técnico da Espanha em 2010] depois.

Ele disse: ‘Estive analisando e reavaliando todo o jogo com a minha comissão técnica e não sei onde a gente errou ao não transformar em gol a nossa superioridade’.

Futebol às vezes te apresenta isso. No entanto, ele se recuperou e foi campeão.

A Costa Rica não perdeu na última Copa do Mundo.

E, como segunda classificada [nas Américas Central e do Norte], tirou os Estados Unidos, que investiram muito alto na estruturação do seu futebol.

Também joga com linha de cinco ou de quatro, falando em termos táticos. Já a Sérvia tem um futebol um pouquinho mais solto, mais de agredir. Tem um pouco mais de criação de jogada, próprio da escola iugoslava.”

Tite está alerta para o que Xhaka, meio-campista da Suíça que joga no futebol inglês, pode aprontar contra o Brasil

 

Final: O palco da Copa

(PIxabay/Reprodução)

“Fui à Rússia com a expectativa de encontrar um povo muito fechado, arredio, frio. Pelo contrário.

Não sei se é um pouquinho pela nossa característica, com essa formação simpática, mas à medida que você dá um obrigado em russo, um spasibo, eles se surpreendem e abrem o sorriso.

É legal, puxa. Eles são receptivos. Não senti um povo fechado. Nem nos hotéis, nem nos locais dos jogos.

Mas estão extremamente cuidadosos em termos de segurança. Muito fortes.

A gente tem um local de treinamento muito bom em Sochi. Local de treinamento e acomodações muito próximos. Isso potencializa o tempo.

Não precisa sair, pegar ônibus. Tu consegue administrar o tempo, enriquecer teu dia a dia.

E dá a possibilidade de estar com as famílias em questão de dez minutos.

Entenda-se como família os seus amigos, sua esposa, sua namorada, o seu casinho, cada um escolhe.

Cada atleta tem sua responsabilidade e responde por seu comportamento. Não posso ser paternalista.

Não vou segurar as pessoas por 52 dias – tomara que sejam 52 [total de dias da reunião da seleção até a final da Copa] – fechadas, enclausuradas.

A gente procura focar em dois aspectos: preparação de jogos e os jogos. E a família por perto para dar toda condição”.

 

Extracampo

“Cada um de nós tem a sua espiritualidade.

Ela é mais do que religião. Para mim, a maior religião é fazer o bem. Quando a gente faz o bem, está legal.

Até se o cara for ateu, para mim, ele é meu irmão, desde que a premissa dele seja fazer o bem.

O que eu procuro fazer nas minhas orações? Estar em paz e ter discernimento. É só o que eu peço: paz, saúde e discernimento.

Com discernimento, eu posso escolher. Vou enxergar o caminho ruim e o caminho bom. O caminho competente e o caminho nebuloso.

Vou deixar vir para fora o meu lado escuro, que eu tenho, ou o meu lado bom? Então eu consigo, através da minha oração, me equilibrar um pouquinho. Sem orar para ganhar ou [o adversário] perder.

Isso eu não faço.

Tenho minha mãe, de quem eu peço a benção.

Mas todos os outros técnicos têm mães que também dão benção, também estão assistindo e torcendo por eles, igual à minha.

O mesmo Deus meu é o Deus de todo mundo”.

Newsletter Conteúdo exclusivo para você