O conceito que comer gordura faz mal à saúde está por um triz

Em livro que causou celeuma na comunidade científica, jornalista explica como o vilão da dieta, a gordura, é ditado por influência, e não por pesquisas

 (Ronald Sarayudej/Flickr)

A caçada contra a gordura começou com o general e presidente americano Dwight Eisenhower.

Não, ela não foi motivada por nenhuma de suas campanhas da Segunda Guerra Mundial nem por sua administração frente à Presidência dos Estados Unidos, de 1953 até 1961, mas sim por um evento pessoal, ocorrido em 1955.

Aos 65 anos, Eisenhower sofreu um ataque do coração. Em vez de esconder sua condição, resolveu falar abertamente sobre algo que até 30 anos antes era praticamente inofensivo nos Estados Unidos: os problemas cardíacos.

Para tratar de seu caso, o presidente e sua equipe médica basearam-se em um estudo feito pelo nutricionista Ancel Keys, que desenvolveu a “teoria da dieta-coração”.

Ela parte de uma premissa simples: as gorduras saturadas são o grande vilão de uma dieta, sendo as principais responsáveis pelo aumento do colesterol e das chances de infarto.

Postulada na década de 50, a teoria ainda é considerada uma das bases do programa nutricional americano. Vários estudos tentaram mudar essa percepção – em vão, por diversos motivos.

Livro Gordura sem Medo

 (Divulgação/Reprodução)

Em busca de outra visão em relação aos paradigmas nutricionais vigentes, a jornalista Nina Teicholz virou persona non grata na comunidade científica por expor as falhas desses estudos e as táticas usadas por eles para desconsiderar e ignorar pesquisadores que iam contra a maré teórica em Gordura sem Medo.

Para começar, o estudo de Keys para confirmar a teoria da dieta-coração foi feito entre 1958 e 1964 em sete países.

Revisitado anos depois, mostrou inconsistências metodológicas. A principal foi a escolha dos países: deixando de fora Alemanha e França, ele trabalhou com resultados que satisfariam seus interesses, já que a taxa de doenças cardíacas desses países era relativamente baixa — apesar da dieta rica em gorduras saturadas.

Nina leu estudos antropológicos do início do século 20 que mostravam que alguns povos com dieta quase que exclusiva de gordura animal tinham saúde praticamente perfeita.

Ao mesmo tempo, incluiu em seu livro as pesquisas do britânico John Yudkin, que baseou seus estudos em outro vilão das doenças cardíacas: o açúcar.

Bacon

 (Getty/Reprodução)

Ele percebeu que este era um agente mais constante nos casos de cardiopatias do que a gordura saturada e se valeu de um argumento histórico: a carne e seus carboidratos estão na base da alimentação humana há 10 mil anos.

Já o açúcar apareceu em nossos pratos há meros 300, uma fração ínfima da humanidade.

Seus artigos, no entanto, foram demonizados e enfrentaram o ferrenho lobby do Instituto Britânico do Açúcar e outras instituições com interesses afins.

Ele terminou sua carreira desacreditado, enquanto Ancel Keys e seus estudos ditam a alimentação adotada hoje pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH na sigla inglesa).

Entre 1950 e 2000, o número de obesos nos Estados Unidos cresceu 23%.