Como é e quem faz o novo pornô

Nossa colunista conversa com a criadora e atores do site X-Art para entender por que os filmes são tão diferentes, naturais e, por isso, tão excitantes

 (theinfluence.org/Reprodução)

Imagine um filme com cenários paradisíacos e mulheres mais incríveis ainda (a maioria delas da República Tcheca, não preciso dizer mais nada).

Todas bem naturais, longe do estereótipo gostosa-pornstar. Elas fazem sexo sozinhas, entre si, com homens ou com várias pessoas ao mesmo tempo.

Não é hardcore, mas também não é soft porn. Nas transas, rola algo próximo da tal química que a gente tanto busca na vida sexual – justamente porque, muitas vezes, quem atua são casais de verdade.

Assim são os vídeos da X-Art, uma das maiores e mais originais produtoras de filmes pornô do mundo atualmente.

O site ganhou uma versão brasileira e foi a atração da Erotika Fair. Lá, conversei com sua criadora, Colette Field.

“Se pareço cansada hoje, a culpa é sua”, disse para ela assim que a vi. “Passei a noite vendo vídeos da X-Art.

Comecei com um, só para saber do que se tratava, e não consegui mais parar!” Ela riu e disse que esse era o efeito da beleza dos filmes – justamente o que ela pretendia.

“É diferente. Queremos que quem esteja atuando goste de sexo e goste de ser assistido. Tem que ser um prazer real.”

A frase talvez resuma a diferença entre os filmes deles e os de gosto duvidoso que deram à pornografia essa aura de lado B.

A ideia da X-Art surgiu quando Colette era modelo, e o marido, Brigham, fotografava nus. Ambos sentiam que havia uma lacuna no pornô entre o hardcore trash dos filmes e o simples nu artístico das boas fotografias.

“Decidimos fazer isso que não estava sendo oferecido: algo que falasse às pessoas que gostam de pessoas bonitas, lugares bonitos, beleza no sexo.”

Beleza é o que não falta. Especialmente quando falamos das atrizes – que eles preferem chamar de “modelos”. Little Caprice é a grande musa da X-Art.

E, provavelmente, a mulher mais bonita do pornô na atualidade. Exclusiva da empresa de Colette, ela transa com o marido Markus em muitos dos vídeos.

Bonitão e supersimpático, ele tem uma vibe meio vilão-de- filme-do-007. Contou que no início foi estranho. “Alguém chupar sua mulher na sua frente ou ela ver você sendo chupado por outra nem sempre é fácil. Mas adoramos sexo, então acabamos nos acostumando.”

Markus está há dez anos no palco e há um na X-Art. Caprice me disse que o mais excitante na tela são os sentimentos que as pessoas veem entre os atores. Sexo com amor é sempre melhor, ver isso na tela obviamente é excitante.

A X-Art tem algo essencialmente diferente do pornô mainstream americano. Algo que transcende a questão do gostar de estar em cena.

Fui chegando mais perto de entender o que é isso quando, depois da Erotika Fair, fomos juntos comer pizza e tomar uns bons drinques.

Ali, no papo mais em off, conheci as histórias de cada ator. Uma das meninas, de 22 anos, me contou que só transou com dois homens na vida: ambos foram maridos dela que atuavam junto na X-Art.

Lisa, outra beldade tcheca, era casada fazia seis anos e apaixonada pelo marido, por isso só transa nos filmes com mulheres. O cara quer agora atuar também, o que deve acontecer em junho.

Havia conservadorismo no meio dessa gente supostamente tão libertina. Kaylee, também tcheca e uma das meninas exclusivas da X-Art, confirmou o que pensei: “Falamos de sexo de um jeito diferente dos americanos. Tem outro sentido para a gente”.

Jakub, sentado na minha frente com seus lindos olhos claros, falava de Milan Kundera. Para ele, a X-Art é completamente diferente de outras produtoras.

“Tem mais respeito, é mais excitante, eles buscam uma verdade ali. Parece mais com sexo na vida real.”

Ouvindo as histórias dos atores, é possível entender um pouco a sensação que a gente tem ao ver seus filmes.

Claro que não chega a ser ingênuo – nada no pornô é assim. Mas o negócio é verdadeiro. É todo um processo que leva a esse resultado diferente: desde o fato de Colette só contratar gente que admira até o comportamento dos atores, que se entregam, passando pelo cuidado e respeito que rola entre eles todos.

Claro que tudo isso só podia gerar um pornô mais orgânico, mais belo, que nos toca em outros pontos porque nos remete ao tipo de sexo que o pornô mainstream não chega nem perto.

Tudo isso faz o termo “beautiful erotica” (que eles preferem usar no lugar de “pornô”) não parecer um eufemismo.

Estendemos um pouco a noite tomando mais drinques no hotel em que eles estavam hospedados e fui para casa caminhando pela madrugada de São Paulo e lembrando do poema de Drummond: “Sejamos pornográficos (docemente pornográficos)”.

* Carol Teixeira é filósofa e escritora e tem o blog aobscenasenhoritac.com.br. Siga-a: @carolteixeira_