[Ideias VIP] Pela legalização da escapadinha

Casamento é uma coisa, monogamia é outra. Ou quase...

 (Pinterest/Reprodução)

Confesso que minha natureza é possessiva. Já fiz muito barraco nesta vida por ciúme (shhh, não conte para ninguém). E tenho o azar de achar excitante a ideia de posse – sempre romantizei sexualmente “ser de alguém” e alguém “ser meu”.

Mas com o tempo fui mudando e hoje ando escrevendo muito sobre novas alternativas de relacionamentos e ideias mais abertas, justamente porque venho adaptando minha natureza ciumenta ao mundo real.

E, nele, a posse é apenas uma ideia. Tem sido um aprendizado interessante porque cada vez mais dissocio a ideia de amor da de posse.

Quando olho para o relacionamento dos outros vejo isso de forma muito clara: a falta de flexibilidade é a responsável por grande parte da angústia e da frustração. Essa tentativa de enquadrar a humanidade numa fórmula idealizada da monogamia só gera expectativa frustrada.

Olhe ao seu redor, faça uma rápida análise da sua vida e verá que os fatos vão numa direção e o discurso do casamento ideal vai em outra.

Tudo bem em desejar um relacionamento no qual você só fique com a mesma pessoa e ela com você, mas – sejamos sinceros – você realmente acredita que é possível essa fidelidade cega num relacionamento de muitos anos? Pense nas suas experiências e nas relações ao seu redor.

Apesar de hoje achar a relação aberta uma opção interessante, penso que nem sempre precisamos chegar nesse extremo. Mas sinto que o sistema monogâmico precisa ser revisto com olhos mais reais.

E não digo isso para jogar um balde de água fria no romantismo de ninguém (até porque sou super-romântica), mas de questionar a ideia errônea de que um amor feliz precise da monogamia pra ser bem-sucedido.

Pensei muito nisso quando um casal de amigos, que estão juntos há mais de dez anos, passou por uma crise: ele descobriu que ela tinha ficado com alguém durante uma viagem sozinha e surtou, terminando por um tempo.

casal mar

 (Reprodução/Pinterest/Fonte padrão)

Será mesmo necessário esse sofrimento ou podemos ter um olhar mais compreensivo para nós mesmos? Será que toda uma vida construída junto e uma parceria em questões mais amplas se tornam tão frágeis diante de uma escapadinha?

Revi esses dias o filme Antes da Meia Noite, último da trilogia dirigida por Richard Linklater que inicia com Antes do Amanhecer. Nos dois primeiros filmes, o casal se encontra e desencontra, tudo muito leve e romântico, mas no último eles estão casados há anos e com duas filhas.

Entre várias DRs, entendemos que estão em crise e que a realidade chegou. No dia a dia, na construção de uma vida juntos, vem o peso da realidade. Apegar- se a idealizações só traz infelicidade.

Tem uma cena na qual ela o pressiona para confessar que anos atrás ele tinha transado com outra mulher. Ele olha pra ela e diz: “Eu estou te dando minha vida, ok? Eu não tenho nada mais grandioso para dar. E eu não estou dando minha vida para mais ninguém”.

Parece uma desculpa, mas não é. Faz todo sentido. Parceria de vida é uma coisa, sexo é outra.

E nesse caso, mesmo eu que idealize tanto o sexo, preciso dizer que ele é infinitamente menos relevante diante das questões mais importantes que compõem um relacionamento.


Carol Teixeira é filósofa, escritora e autora do livro Bitch (Record). Siga-a: @carolteixeira_

Matéria originalmente publicada na edição 358 da Revista VIP

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