Precisamos falar sobre antidepressivos e sexualidade

Os antidepressivos são indicados para tratamento não só de depressão mas também de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), síndrome do pânico e mais

A maior parte das pessoas com depressão já sente pouca ou nenhuma vontade de transar. A autoestima fica bastante comprometida, e a vida, de modo geral, cinza e sombria. O antidepressivo tira esse peso e ajuda a reacender a motivação e o interesse da pessoa em se relacionar com os outros. E, se sexo e afeto são movidos por energias que promovem prazer e proximidade, então seu efeito por si só já é positivo.

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Foto de Joe Raedle/Getty Images) (Foto de Joe Raedle/Getty Images/Divulgação)

Os antidepressivos são indicados para tratamento não só de depressão mas também de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), síndrome do pânico e outras doenças. Para melhorar o humor e a ansiedade, agem de maneira complexa, principalmente aumentando a ação de substâncias chamadas de serotonina, noradrenalina e/ou dopamina. Eles também agem como anticolinérgicos, antialfa adrenérgicos e anti-histamínicos. Acontece que isso tudo pode, no entanto, levar a uma série de efeitos colaterais e indesejáveis. A função sexual é uma das atingidas por essas medicações.

Feliz, mas sem tesão

Foto : Aitor Alcalde/Getty Images Foto : Aitor Alcalde/Getty Images

Foto : Aitor Alcalde/Getty Images (Foto : Aitor Alcalde/Getty Images/)

Vários grupos de antidepressivos têm um efeito negativo sobre o desejo, inibindo-o. Ou seja, você tem uma melhora expressiva de sua condição emocional, mas perde o interesse pelo sexo. Um preço alto a pagar para quem gosta de transar, pois “apaga-se” o desejo, mas não a memória do quanto é bom desejar. Além disso, se você está em um relacionamento estável, é possível que uma diferença de interesse pelo sexo apareça, o que pode gerar incômodo e fantasias desastrosas (“não me quer mais”, “está sendo infiel”). Tem gente que tem vergonha de contar que está usando antidepressivo e acaba num beco sem saída: ou finge interesse ou passa a evitar qualquer situação que promova intimidade.

Feliz, mas com dificuldade de gozar

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É o fim da picada. Se a pessoa tem falta de desejo, mas, sabendo disso, se disponibiliza ao jogo amoroso e aproveita, ok. Porém, ter dificuldade para o orgasmo é um efeito colateral que só ajuda homens com ejaculação precoce. (Aliás, muitos médicos logo receitam antidepressivos com essa característica, sem compreender a etiologia da disfunção e antes de incentivar os pacientes a tentar controle ejaculatório.)

A boa notícia

Foto: George Marks/Retrofile/Getty Images Foto: George Marks/Retrofile/Getty Images

Foto: George Marks/Retrofile/Getty Images (Foto: George Marks/Retrofile/Getty Images/)

Nem todos os grupos de antidepressivos têm o mesmo efeito sobre a resposta sexual. Segundo meu amigo psiquiatra Arnaldo Barbieri Filho, que fez uma revisão de literatura sobre o tema, as substâncias que menos provocam alterações na resposta sexual são as que possuem como princípio ativo bupropiona, agomelatina, vilazodona, mirtazapina, nefazodona, moclobemida, reboxetina e tianeptina, cada qual com sua especificidade. Como cada grupo de antidepressivos atua melhor em determinado transtorno, não é simples resolver a equação. Então, é importante conversar com o médico sobre os efeitos e o tempo de uso e fazer acompanhamento, pois é possível que resultados indesejados sobre a sexualidade desapareçam espontaneamente. Ou, a médio prazo, diminuir a dose, dar um intervalo, trocar o antidepressivo. Tenha paciência e saiba priorizar: às vezes a tempestade é muito intensa e sexo é a última coisa que importa. Em outras, você não precisa abrir mão dos prazeres em nome de situações que poderiam ser resolvidas de outra maneira.