Sexo verbal: vale a pena aprimorar seu discurso erótico durante a transa

Muito mais que sexo oral, falar obscenidades na cama é requisito útil para esquentar uma transa e acompanhamento inestimável de um ápice prazeroso

conversa erotica

Nos últimos tempos, tenho me lembrado com carinho do Carlos, meu Campeão da Cama.

Além do desempenho excelente nas práticas sexuais tradicionais, Carlos dominava artes mais esotéricas: ele sabia como ninguém falar obscenidades.

Do sussurro excitante em público à frase depravada dita no momento certo na cama, ele era um mestre do discurso erótico.

Falar obscenidades é prólogo útil e acompanhamento inestimável do ato propriamente dito.

Não tenho dúvida de que as pessoas vêm trocando palavrões na intimidade desde que o mundo é mundo, mas, no meu ponto de vista, a Igreja Católica medieval é a grande responsável pela evolução da sua técnica, que emergiu dos grunhidos do homem de Neanderthal para a arte sofisticada de agora.

Senão, vejamos. Até o século XVII, as confissões eram feitas numa sala normal, onde padre e pecador estavam em contato visual e alcance tátil um do outro.

As perguntas recomendadas ao padre eram paradigmas de auto-sugestão pervertida: “Já tocou as partes íntimas de um homem com prazer, desejando cometer pecado? Um deles foi seu irmão mais velho? Um deles foi seu irmão mais novo?”

 

Voyeurs auditivos

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 (Site That's Life!/Reprodução)

O efeito era de excitação em tão alto grau que não espanta que, a seguir, tenha ocorrido uma epidemia de fornicação com sentimento de culpa e flagelação mútuo, só contida com a introdução da cabine de confissão.

A partir daí, a experiência adotou sabor masturbatório, mas falar obscenidades já fazia parte do universo sexual.

Tirando os voyeurs auditivos, muitas vezes os palavrões de uma pessoa se traduzem em perda de excitação para outra.

Na universidade, uma vez acordei com o som familiar de colchão balançando acompanhado de “oohs” e “aahs” e uma voz feminina (da Belinda) atravessando a parede claramente: “Me bate, oh, me bate, me chama de puta”.

Ao que o surpreso jovem emitiu uns poucos sussurros ineptos e seu trem erótico teve uma parada embaraçosa na estação da impotência.

O infortúnio de Belinda destaca outro aspecto da questão.

Embora um nível convencional de conversa erótica seja inestimável para o antes e um adendo muito bem-vindo ao durante, a possibilidade de que alguém com gosto mais bizarro encontre um interlocutor à altura é muito pequena.

Há pessoas que simplesmente não falam a mesma língua. Sussurrar “Vou te comer até você desmaiar” antes que estejam definidas as regras do diálogo sexual é imbecil e até perigoso nestes tempos politicamente corretos.

 

Bom de lábia?

casal

 (Pxhere/Reprodução)

Claro que não é fácil encetar um discurso erótico. Isso depende, mais que habilidade, de imaginação.

Mas, se você tem livre acesso a esse território da fantasia, estará bem encaminhado. Há registro de casos que podem sugestioná-lo.

À personagem de Jamie Lee Curtis em Um Peixe Chamado Wanda, por exemplo, bastava ouvir John Cleese falar com sotaque russo para explodir em um clímax apoteótico.

Minha amiga Amy teve certa vez um namorado excentricamente pedagógico.

Durante o sexo, o que ele mais gostava era de falar como se fosse um instrutor de auto-escola.

Só que, em vez de “Quando eu bater no painel, pare o carro do modo mais rápido e seguro que puder”, ele dizia “Quando eu puxar seu cabelo, ponha na boca do modo mais rápido e ansioso que puder”.

Felizmente, o namoro teve uma parada de emergência quando Amy tentou introduzir seus próprios comentários. O “instrutor de sexo” mostrou-se então um megalômano adepto do monólogo.

Como na maioria das coisas, há uma diferença entre o script de cada sexo.

Homens dominam o aforismo obsceno vigoroso (“Curve-se para a frente”); mulheres são mestras na fantasia erótica mais literária.

Mas elas raramente têm chance de desenvolver seu próprio script.

Geralmente, o homem toma posse do volante e desvia a narrativa para a rua de indecências de sua escolha.

 

Leitura sexual

conversa erótica

 (Divulgação/Reprodução)

Um amigo escritor gosta de usar livros como brinquedos sexuais “irônicos”, nos quais a mulher tem que ler um trecho enquanto ele a penetra de todos os ângulos.

O desafio dele é reduzir a voz dela a um sussurro entrecortado. O dela é de resistir a isso.

Ele começou com clássicos convencionais, como História de O, mas seu gosto degenerou a extremos de perversidade: acabou chegando a Jane Austen – juro.

O que me traz de volta a Carlos, cuja famosa eloquência finalmente passou dos limites por causa de seu gosto exagerado por uma metaanfetamina americana chamada Ice.

Não apenas seu já considerável atletismo sexual atingiu níveis insuportáveis, como ele também começou a sofrer de incurável incontinência pornográfica oral.

O tempo todo, hora após hora. A única alternativa foi desligar, deitar e dormir ao som de um abençoado silêncio.