Por que seu próximo banco vai ser uma fintech

Conheça quem são os homens por trás desse novo mercado financeiro

Nubank

 (Nubank/Divulgação)

Esqueça fila, gerente, taxas e burocracia: sua relação com o banco como você a conhecia não faz sentido em 2018.

Startups especializadas em finanças, as fintechs, surgiram para modernizar a maneira como você cuida do seu dinheiro, com serviços digitalizados, transações sem papel, contas sem tarifa e atendimento em tempo integral.

“Em linhas gerais, uma fintech oferece produtos de banco e tem cara de banco, mas não o peso que há por trás de um banco”, explica o executivo da área de finanças Gustavo Marini Rodrigues, de São Paulo. “Quando você tem uma conta em um banco grande, paga pela estrutura dele. São milhares de funcionários, várias agências. Hoje todo mundo tem um smartphone e, por meio dele, é possível as fintechs oferecerem os serviços de um banco. Elas chegam, portanto, aos mesmos lugares que os bancos tradicionais — e sem o custo deles, pois são, em sua maioria, totalmente digitais.”

Há, segundo Gustavo, duas vantagens óbvias em ter uma conta em uma fintech. A primeira é a praticidade: você faz absolutamente tudo pelo celular, sem precisar deslocar-se a uma agência física — inclusive aumentar seu limite do cartão de crédito ou conseguir um empréstimo.

A segunda é financeira. “Bancos grandes cobram por pacotes: você tem direito a um determinado número de transações por mês – e paga por isso mesmo que não use tudo. Em uma fintech, as taxas, quando existem, são só sobre operações específicas”, afirma o especialista. “Se você tem um fluxo de transações grande e migra para uma fintech, pode ter uma economia robusta no fim do mês.”

Existem ainda outros benefícios. “A adequação do formato ao público-alvo é uma: há fintechs voltadas à classe AB, visando investimentos, outras para quem tem menos dinheiro e usa apenas serviços específicos. Sem contar a vantagem da impessoalidade: o gerente não vai ficar me julgando se eu vou lá tentar um empréstimo”, diz Gustavo.

Toda fintech é regulamentada pelo Banco Central e está sujeita a regras aplicadas a instituições financeiras. E seus cartões funcionam com bandeiras como MasterCard ou Visa.

Nubank

 (Nubank/Reprodução)

Geralmente, essas startups especializam-se em um nicho: cartão de crédito, financiamento, gestão de finanças pessoais. Algumas, porém, já se transformaram em bancos completos.

“Uma fintech pode muito bem ser seu único banco hoje”, conta Gustavo — que, aliás, está estudando o mercado com um objetivo pessoal. “Os bancos tradicionais já não me atendem, mas sempre estive preso. Agora, no entanto, tenho opções – e estou avaliando em qual fintech vou abrir uma conta.”

O sucesso delas é tão grande que os bancos tradicionais contra-atacam. “Vários estão lançando suas próprias fintechs, que funcionam com a mesma ideia de inovação em processos e plataformas tecnológicas de fácil interação, mas o marketing é haver, por trás, a robustez e a garantia de uma grande instituição”, diz.

O Bradesco criou o Next, banco digital e gestor de finanças pessoais. O Itaú, um cartão digital e sem anuidade. E o Banco do Brasil, a Ciclic, para vender previdência privada pelo site ou app, a taxas mais baixas.

Uma fintech, porém, não é perfeita para todo mundo. “Para grandes corporações, falta volume para transações maiores ou para operações multipaíses ou multimoedas.”

Conversamos com três fundadores de fintechs de sucesso para descobrir quem eles são, de onde vieram e como se habilitaram a cuidar do seu dinheiro.

 

Pedro Conrade — Banco Neon

Pedro Conrade

 (Exame.com/Reprodução)

Foi por causa de 1,30 real que nasceu o banqueiro mais jovem do Brasil. Pedro Conrade, paulistano criado no Guarujá, já tinha vontade de abrir um negócio digital quando, por essa irrisória quantia, entrou no cheque especial — que nem sabia que tinha. O banco cobrou 46 reais de tarifa.

“Aquilo me deixou assustado e inconformado. Pensei: vou montar um banco para que um jovem como eu não precise passar por essa experiência e possa ter uma conta com tranquilidade e transparência sem ter que pagar uma fortuna”, conta.

Dois anos depois, aos 26, ele está à frente do Neon, banco totalmente digital com 150 funcionários e 450 mil usuários.

Um feito e tanto para quem usa sempre a mesma roupa, não tem mais carro e chegou a morar dentro de um Fiesta Hatch.

Foi durante uma mudança de casa e no tempo em que o pai, que o criou e é sua grande inspiração na vida, estava no hospital — ele sucumbiu a um câncer em 2008. “Fiz uma assinatura na academia, tomava banho lá e dormia no estacionamento”, lembra.

Um amigo descobriu e o tirou do veículo. Certa vez, três banqueiros tradicionais o convidaram para almoçar para saber mais sobre ele. Perguntaram qual era o custo da empresa por mês. “Eu disse: ‘X’.” “Não, com o salário dos executivos.” Ele repetiu: “X”, para espanto dos colegas. “Eu não gasto com nada, então qualquer dinheiro é o bastante. De segunda a sexta, trabalho como um maluco, sábado vou para o Guarujá e curto a praia. Só gosto de comer bem e tomar um drinque”, revela.

Um negroni, porque lembra do pai, que tomava Campari.

Trabalhar nunca foi um problema para Pedro. Começou com 16 anos, ao montar uma loja de biquínis no Guarujá.

Entrou em um negócio de compras coletivas, quebrou, aprendeu com os erros.

Por causa de uma promessa feita ao pai, cursou administração na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Estudou em Boston e na Alemanha, ambos com bolsas de estudos.

Não chegou a se formar. Decidiu entrar no mercado digital com uma empresa que intermediava a relação entre investidores e startups, até que lançou a Controle, de cartões pré-pagos, berço da joint venture que fez nascer o Neon.

Enquanto a maioria das fintechs se especializou em um determinado setor financeiro, Pedro Conrade optou por um banco completo. “Percebi que trazer tudo para o mesmo sistema era uma forma de ajudar o cliente a ter eficiência, clareza e transparência”, resume.

A ideia é a de um banco totalmente digital, sem burocracias, com informações claras e atendimento em tempo integral.

“Esse banco não foi criado por um banqueiro, mas por um cliente. Eu passei por experiências ruins que jamais quero que aconteçam com os meus clientes.”

Até dois anos atrás, a vida de Pedro era dormir e trabalhar. Hoje inclui a futura esposa, com quem mora.

Como alguém que só dormia e trabalhava conheceu a moça? No trabalho, claro. “Ela teve uma ideia de negócio, veio perguntar o que achava e a gente começou a conversar.”

 

David Vélez — Nubank

David Vélez

 (Pinterest/Reprodução)

Ele entrou em um banco na Avenida Faria Lima, em São Paulo, em 2012, e se sentiu em uma salinha de imigração de um aeroporto americano.

Lugar que ele conhece bem, uma vez que David Vélez é colombiano de Medellín, e quase sempre foi escolhido “aleatoriamente” para uma revista mais detalhada em suas passagens pelos EUA.

“O segurança grosseiro me mandou deixar a mala nos armários, depois o alarme soou por causa do celular, tive de ir e voltar duas, três vezes”, relembra.

“Banco, no Brasil, era uma experiência como imigração ou cadeia. Você é maltratado, deixa tudo na porta e espera longos minutos para conseguir falar com alguém. Olhei para o meu saldo, para os juros do cartão de crédito, de 420% ao ano, e pensei como era possível pagar tudo aquilo e ser tratado como um criminoso.”

Foi um insight. Mas não o único. Junte-se a essa experiência o fato de David ter nascido em uma família cujo pai e os 11 irmãos eram todos empreendedores, e crescido com a ideia de que legal era não ter chefe.

Mais: ele estava em São Paulo buscando bons investimentos para o fundo Sequoia Capital, e conhecia o panorama da tecnologia no Brasil: um número crescente de smartphones e uma população jovem em busca de mais serviços on-line.

Ele juntou A com B com C e nasceu, em 2013, o Nubank.

“Zero tarifa, zero burocracia, tudo digital, juros mais baixos que os de mercado”, resume. A própria Sequoia investiu 2 milhões de reais iniciais no negócio e Vélez conseguiu dois sócios.

O Nubank é a primeira empresa do mercado financeiro no país sem canais físicos. Começou a operar em setembro de 2014 com um cartão de crédito MasterCard sem tarifa ou anuidade.

Hoje tem mais de 3 milhões de clientes, cerca de 850 funcionários, já arrecadou mais de 180 milhões de dólares em investimentos e é a sexta empresa de cartões no país.

Em outubro, lançou a NuConta, sua conta corrente digital — em testes, com saques em Bancos 24Horas.

Em fevereiro, o Nubank foi eleito a terceira empresa mais inovadora da América Latina pela Fast Company, “por atacar as altas taxas de cartão de crédito do Brasil”.

David morou na Costa Rica, EUA e Alemanha até vir para cá, com a Sequoia Capital.

Quando a empresa foi embora do país, ele ficou. O episódio na porta do banco o fez ter certeza de que era aqui – e nisso – que deveria empreender.

 

Sergio Furio — Creditas

Sergio Furio

 (Pinterest/Reprodução)

Ele diz que só queria impressionar uma moça. O espanhol Sergio Furio tinha 35 anos, 12 de uma carreira consolidada no Boston Consulting Group, na área de consultoria estratégica, lidando com bancos.

Como já havia estudado em Nova York, pediu para o transferirem do seu país de origem para o escritório de lá.

Era fim de 2008, momento crítico da economia americana, e ele se envolveu em um projeto de quatro anos de um grande banco no Alabama.

Ia e voltava toda semana, até que a equipe cresceu e em 2011 ganhou o reforço de uma brasileira, a Silvia.

Ficaram muito amigos. “Ela passou quatro meses lá, depois voltou para outros projetos e começamos a namorar”, lembra.

“Muitos dos meus amigos estavam buscando empreender, eu tinha trabalhado a vida toda com finanças e as fintechs já eram uma realidade em Nova York, como uma resposta inclusive aos grandes bancos depois da crise. Tentando impressionar a moça, propus que a gente fosse ao Brasil resolver o problema dos juros, que estavam na casa dos 200% ao ano.”

Com quatro meses de namoro, ela pediu transferência, ele, as contas, e vieram para o Brasil.

“Uma reserva de 150 mil dólares na conta era tudo o que tinha para abrir uma empresa”, lembra. Primeiro nasceu o BankFácil, como plataforma de educação financeira, em 2012.

A empresa continuou atuando nesse ramo, mas passou a priorizar o conceito de crédito com garantias, de imóvel ou veículo. E mudou de nome, para Creditas, no ano passado.

“Nosso objetivo com a Creditas é reduzir os juros do brasileiro e mudar a lógica do endividamento a curto prazo. A família no país tem pouco endividamento, mas ele é muito caro e de curtíssimo prazo”, analisa Furio. A missão nem sempre foi fácil.

No fim de 2013, os investidores não chegavam, ele vendeu o apartamento que tinha em Nova York e continuou dividindo as contas em casa e tocando a empresa, aberta só com suas economias.

Até que entrou um primeiro investimento de 3 milhões de reais, depois de um ano e meio.

O time cresceu, mais duas rodadas de investimento se seguiram, de 10 e de 15 milhões de reais, e hoje a Creditas é uma fintech com 330 pessoas, que viu suas operações crescerem sete vezes em 2017 — e Furio é pai de duas meninas brasileiras.

“Queremos ser lembrados como a empresa que mudou a política de juros no Brasil.”

 

E o banco original?

Celular dinheiro

 (Medium/Reprodução)

O Original é um banco ou uma fintech? “Adorei a provocação”, afirma a executiva Claudia Woods, diretora de varejo do Original e uma das responsáveis por sua digitalização.

Porque ele não nasceu assim, tecnológico como é hoje. Foi criado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista em 2013, da fusão entre o Banco JBS (da holding J&F) e o Banco Matone, especializado em crédito consignado.

Os irmãos Batista são, sim, os mesmos que estão no epicentro do maior escândalo de corrupção nos dias de hoje.

Pouco depois da criação do Original, o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, assumiu o comando dele e o relançou, completamente digital, em fevereiro de 2016 — era o primeiro banco do país em que se abria conta pelo celular.

“Nós somos um fullbank, multiproduto: temos conta corrente, cartão de crédito e de débito, seguro, previdência privada, cheque especial. Pela gama de ofertas, estamos próximos de um banco. Mas, quando falamos da plataforma, origem e forma com que operamos, somos 100% fintech”, diz Claudia, uma das primeiras a chegar para a digitalização.

“Conseguimos plugar todos os serviços do banco em outros aplicativos. Você pode, pelo Facebook ou Instagram, checar saldo ou fazer transferência.” E depois da delação premiada dos irmãos Batista?

“Foi aí que vimos como o banco estava sólido. Houve muita agilidade para o plano de liquidez e a gestão de crise. Desaceleramos, mas nunca deixamos de crescer. E janeiro de 2018 foi o melhor mês da história.”

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