Albânia: as surpresas e tesouros da riviera do futuro

Com praias de águas cristalinas, baladas promissoras e cidades seculares, a Albânia é o último mistério do Mediterrâneo  

Albânia Vista da praia de Himare, a maior cidade da costa oeste da Albânia e de onde começa a tal nova rviera

Vista da praia de Himare, a maior cidade da costa oeste da Albânia e de onde começa a tal nova rviera (Divulgação/Fonte padrão)

Quando, lá por 2030, o jornal New York Times decretar que a Albânia é a nova Croácia, você poderá se gabar de ter ido antes.

Basta não tardar muito em fincar o guarda-sol na orla de pedras de Dhërmi, o epicentro da costa litorânea, que vem sendo precocemente chamada de a nova riviera.

Para chegar lá, é preciso munir-se de espírito de aventura para cruzar um dos países mais montanhosos do mundo: 70% do território albanês tem o aspecto de um eletrocardiograma.

Além de dourar ao sol ao lado de belezas locais ou importadas do Kosovo e da Polônia, você terá a sensação de que entrou numa máquina do tempo — e voltou alguns anos.

Em vez de cafés hipsters e lojas de souvenires, as cidades Berat e Gjirokastra, listadas como Patrimônio da Humanidade, ainda têm galinhas ciscando nos jardins, trepadeiras crescendo nas rachaduras dos muros, cheiro de comida saindo das casas…

Isolada do mundo até 1991, quando se libertou da ditadura comunista implantada com o fim da Segunda Guerra, a Albânia é, definitivamente, o último reduto misterioso e genuinamente retrô do Mediterrâneo.

Riquezas medievais

Albânia O skyline de Berat, a cidade das mil janelas

O skyline de Berat, a cidade das mil janelas (Keven Osborn/Getty Images)

Em Berat, a cidade das mil janelas, escalar uma ladeira de mala em punho foi recompensador. A única vidraça do nosso quarto se escancarava para o Monte Tomori, cujo pico tem 2 416 metros.

Fiquei ali vendo a cúpula da Albanian University desaparecer com o pôr do sol. Saímos ladeira abaixo, tropeçando nas vias irregulares do Mangalem, o bairro muçulmano, até encontrar uma mesquita do século 16.

Depois, cruzando uma ponte de sete arcos de pedra sobre o Rio Osumi, nos perdemos por Gorica, outra vizinhança histórica de ruelas íngremes.

Um menino se ofereceu de guia: não queria gorjeta, só praticar o inglês — coisa de onde turistas ainda são novidade. O passeio terminou em Kalasa, cercada pelas muralhas de um castelo do século 3.

Em mais de 2,5 mil anos de história, rolou de tudo nesse pedaço: gregos, bizantinos, búlgaros e sérvios já estiveram no comando. No século 15, Berat caiu nas mãos do Império Otomano, assim como o resto da Albânia, que só reconquistou sua independência em 1912.

Essas camadas históricas se repetem em Gjirokastra, a 160 quilômetros ao sul, terra natal de dois famosos albaneses: o ditador Enver Hoxha e o escritor Ismail Kadare, autor de Abril Despedaçado (Ed. Companhia de Bolso), que inspirou o filme homônimo protagonizado por Rodrigo Santoro.

Albânia As ruelas de Gjirokastra

As ruelas de Gjirokastra (Walter Bibikow/Fox Fotos/Fonte padrão)

Com vista para o vale de Drina, a cidade de 40 mil habitantes é coroada pelas ruínas de um castelo do século 12.

Se por um lado ainda há artesãos trabalhando nas calçadas e agricultores vendendo mel caseiro, o emaranhado de fios elétricos faz a cidade lembrar o Sudeste Asiático.

Ao passo que os próprios donos da casa Zekate, um exemplo da arquitetura otomana do século 18, recebem os turistas no interior do palacete, as faixas publicitárias coloridas são um anticlímax no bairro antigo.

A Riviera é logo ali

Albânia A costa com lindas praias de pedras claras e mar cristalino

A costa com lindas praias de pedras claras e mar cristalino (Witold Skrypczak/Getty Images)

Entre a Grécia e Montenegro, o país também tem lindas praias de pedras claras, mar cristalino, preços irrisórios e baladas promissoras.

Quem vem de Gjirokastra encontra o mar na cidade de Sarandë, no extremo sul do país. Subindo 22 quilômetros pela costa, a estrada SH8 desemboca no povoado de Lukovë. Ali começa o pedaço que vem sendo chamado de riviera.

O filé do litoral albanês se estende até Dhërmi, somando um total de 50 quilômetros. Para explorar a região, vale escolher um lugar como base e rodar em passeios de bate e volta (veja o mapa mais abaixo).

Nos arredores de Lukovë, o Mar Jônico aparece montanha abaixo. Por toda a costa, diversas estradas em ziguezague desembocam em prainhas anônimas.

A primeira perda de fôlego acontece em Porto Palermo, onde estão as ruínas de uma fortaleza do século 19, cuja construção é atribuída ao paxá otomano Ali Paxá.

Mais impactante ainda é a praia de Llaman, pontilhada de beach clubs que poderiam ser de Mykonos. A sensação não é apenas pelas filas de guarda-sóis de madeira e palha, típicos das Cíclades.

A 12 quilômetros está Jalë, o endereço da balada Folie Marine, que funciona num complexo à la Ibiza.

O lugar fica a meio caminho entre Himarë e Dhërmi, a mais famosa da tal riviera. E a mais charmosa: as imediações da praia ainda têm poucas construções.

A maioria dos hotéis fica na ladeira que liga o mar ao centro histórico, onde casas de pedras se alternam com parreirais.

O vilarejo também é o mais estratégico para acessar Gjipe, uma praia selvagem de areia clara (raridade), encaixada no encontro de um cânion com o mar. Tão longe e tão perto das multidões (e do glamour) de outras rivieras.

 

Manual de sobrevivência

Mapa Albânia

 (Mapa Albânia/VIP)

Dinheiro

A moeda é o lek, mas o euro é bem aceito (€ 1 = 132 lek). Poucos lugares aceitam cartão, então ande sempre com alguns trocados no bolso. Come-se bem por menos de € 10 e hospeda-se melhor ainda por €40 em pleno verão.

Idioma

O albanês é ininteligível e pouquíssima gente fala inglês nas ruas. Mas as pessoas locais são prestativas e arranham um italiano básico. Em geral, dá para se virar com um “portuliano” e um pouco de mímica.

Vida contemporânea

Bares e hotéis costumam ter wi-fi, mas o 4G não funciona em boa parte das estradas. Portanto, não dá para depender do Google Maps. Dica de ouro: o aplicativo Maps Me (que funciona off-line).

Comida

No litoral, os peixes, frutos do mar e receitas gregas garantem a boa mesa. No interior, reinam os pratos à base de carne, principalmente de cordeiro. A Albânia produz vinhos razoáveis. Na dúvida, peça um italiano.

 

Viagem no tempo

Albânia

 (Carsten Koall / Freelancer/Getty Images)

A Albânia abriu-se para o mundo em 1991, com o fim do regime comunista de Enver Hoxha, que governou de 1944 a 1985 pregando o isolacionismo.

Fã de Stalin, o ditador baniu as religiões e, por via das dúvidas, também vetou o uso da barba (um ícone do islamismo, praticado por 58% da população atual), da máquina de escrever e da TV a cores.

Os mais de 700 mil bunkers são testemunhas da paranoia defensiva contra invasores que nunca chegaram.

Mais de 25 anos após a abertura, o país e sua jovem democracia correm atrás do prejuízo como a segunda nação mais pobre da Europa, depois da Moldávia.