Chicago: a melhor cidade para se beber nos EUA

Ela é conhecida pelo blues, pela arquitetura moderna e pelas artes, é também a melhor cidade dos EUA para se beber hoje

Cerveja em Chicago

 (Marcelo Tavares/VIP)

Há cidades que precisam ser contempladas por horas sentado vendo as pessoas passar, a luz do sol mudando a forma de seus monumentos e arquitetura conforme o dia se estende.

Outras exigem fôlego para serem desbravadas aos passos, como um legítimo flâneur. Há ainda aquelas para serem exploradas, as que precisam ser admiradas… E há as cidades que exigem ser degustadas.

Aos golinhos e golões, nas mesas dos restaurantes, nos bares da vizinhança, nos balcões de fim de noite. Chicago, a mais arquitetônica e cívica grande cidade americana, quem diria, é uma delas.

Ainda que pese a tradição etílica da cidade, um nascedouro do blues, lar de gângsters e capangas e morada de boêmios de toda sorte, Chicago vive hoje uma efervescente modernização que foi parar nos copos.

O Lago Michigan visto do observatório do prédio John Hancock Center O Lago Michigan visto do observatório do prédio John Hancock Center

O Lago Michigan visto do observatório do prédio John Hancock Center (reprodução/Divulgação)

Mais do que “a cidade que funciona”, como é chamada, é também “a cidade que bebe”, segundo Bill Savage, professor de inglês e cultura literária na Universidade de Northwestern. Na literatura e principalmente no cinema nenhuma outra cidade americana, segundo Savage, foi tão relacionada às bebidas alcoólicas.

De Sublime Devoção, com James Stewart, a Os Intocáveis, de Brian de Palma, passando pelo moderninho e cervejeiro Um Brinde à Amizade, a cidade sempre foi retratada pela sua empatia pelo álcool”, diz o professor.

Imagem de Al Capone no filme "Capone", de Steve Carver. O mafioso Al Capone, ícone local

O mafioso Al Capone, ícone local (reprodução/internet)

Agora, novas cervejarias, bares com coquetelaria moderna, pubs e restaurantes com cartas de drinques deram mais argumentos para fortalecer essa imagem já quase centenária.

Vale lembrar que Chicago foi uma das principais cidades americanas a prontamente se reorganizar durante a Lei Seca americana para continuar enchendo a cara. Os speakeasy (os bares escondidos onde era possível beber longe dos olhos atentos da polícia) encontraram solo fértil ali: centenas deles se abrigaram em porões, lojas após o horário comercial e até nos fundos de lanchonetes.

Precursão cervejeira

Essa inclinação, por assim dizer, continuou presente nas ruas da cidade e gerou um novo cenário que produz milhares de litros de bebidas por ano. Grande parte deles vem dos tanques de cerveja que, em coro com a revolução artesanal americana que ganhou corpo nos últimos dez anos, fez de Chicago um dos principais polos.

Uma das precursoras desse movimento foi a Goose Island, inaugurada como um brewpub em 1988 por John Hall na região do Lincoln Park. Em 2011, a cervejaria foi adquirida pela multinacional brasileira InBev e se tornou uma das maiores dos EUA e é uma das mais respeitadas.

c5 Uma das torneiras de chope da clássica Goose Island (Imagem: Divulgação)

Uma das torneiras de chope da clássica Goose Island (Imagem: Divulgação) (/)

Isso porque, desde 1992, ela foi a precursora em envelhecer cervejas em barrica de carvalho, incomum para a época. A Bourbon County Stout, uma stout maturada em barris de bourbon, feita para celebrar o milésimo lote fabricado pela cervejaria, é lançada sempre por safras e gera uma fila na fábrica que pode começar dias antes com beer geeks na porta. Elas evaporam mais rápido que álcool, então dificilmente você poderá prová-la quando estiver ali.

Mas isso não atrapalha em nada a visita, que vale muito a pena. Logo na entrada, há um bar que serve direto da torneira oito opções de cervejas produzidas na casa. Já valeria a visita.

Mas o tour guiado dos caras é bem legal, principalmente pela sala de barricas. Algumas cervejas ficam por até 18 meses ali, o que dá uma acidez e um aroma muito particular às cervejas, quase sempre batizadas com nomes femininos. Sofie, Matilda, Juliet, Lolita…

Outra cervejaria que fez fama local é a Half Acre, que fica na região central.  Desde 2006, os inquietos cervejeiros da marca já produziram quase 100 tipos diferentes da bebida, entre lagers e ales: portanto, espere por rótulos inusitados  e receitas inventivas.

Também vale a visita, se não pelo tour no sábado de manhã, pelo Tap Room que serve as cervejas mais frescas da cidade – graças ao fato de a maior parte das torneiras estarem engatadas direto nos tanques.

Coquetelaria nada convencional

Mas nem só de cervejas é feita a cena etílica da cidade do vento, nada disso.  Há quatro anos a FEW, destilaria em Evanston, a 30 minutos do Centro de Chicago, que produz um bom gim barricado (e outro sem barrica) e dois whiskeys – um feito de centeio (o famoso rye whiskey) e outro bourbon – abriu suas portas.

O nome é a união das iniciais de Frances E. Willard, a criadora do Movimento Cristão Antialcoolismo americano que surgiu justamente no Illinois, estado do qual Chicago é a maior cidade. A primeira destilaria da região a ter licença após a Lei Seca não poderia ter nome melhor – e mais irônico. Ali, é possível conhecer os processos de fabricação e até provar os ótimos destilados produzidos.

Muitos deles, aliás, enchem os copos dos principais bares de coquetelaria de Chicago – que são muitos e muito bons. “Assim como os hot dogs e os steaks, Chicago é também uma das capitais americanas da coquetelaria clássica. Não sei se a inspiração é a Lei Seca ou Al Capone, mas a cidade combina com speakeasies e cocktail bars”, afirma Ricardo Garrido, um dos sócios da Companhia Tradicional de Comércio, grupo que detém, entre outros, os bares Astor e SubAstor e o ICI Brasserie.

“Sempre que posso vou a Chicago conferir as tendências, saber o que de legal está rolando na coquetelaria”, diz. “A cena local é inspiradora, pois mostra pra nós qual é a altura da barra de excelência que temos que buscar para alcançarmos bares de uma cidade que une tradição, devoção e inovação em coquetelaria.”

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Destilados barricados pela icônica e irônica destilaria FEW (Imagem: Divulgação) (/)

Quando o Violet Hour abriu as portas, em 2006, era o único a fazer coquetéis com técnica perfeita na cidade. Foi o precursor da nova cena de coquetelaria que transbordou em Chicago. Chique e acessível, é um dos mais premiados da cidade – e uma das visitas imperdíveis, especialmente pelos drinques feitos com gim.

Nessa toada mais moderna, o The Aviary, bar do premiadíssimo chef Grant Achatz (que pilota as panelas do Aline, um dos melhores restaurantes dos EUA) é uma experiência. Nenhum drinque chega à mesa de forma comum.

Há coquetéis servidos em sacos plásticos que são cortados na frente do cliente para exalar todo o aroma de sua combinação de ingredientes ou até mesmo um navio pirata em formato de gelo (há um chef de gelo trabalhando ali, acredite) que vai derretendo dentro da garrafa onde o drinque é colocado. O ambiente também é um atrativo: classudo e cheio de mesas formadas por amigas que bebem muito e riem alto.

O balcão do bar The Aviary O balcão do bar The Aviary

O balcão do bar The Aviary (reprodução/Divulgação)

Para os que querem ir mais fundo na experiência, basta – literalmente – descer as escadas: o The Office é um bar dentro do bar. Na parte inferior do The Aviary, é um porão trancado onde a equipe de barra pilota uma harmonização entre comidas e coquetéis finíssima. “É uma experiência técnica, mas divertida e deliciosa, entre coquetéis e comida em cinco tempos. Resultado sensacional”, afirma Garrido.

Da hotelaria festiva à tradição

Com o novo fôlego turístico da cidade, Chicago tem ganhado novos hotéis – e com eles novos bares. A cidade é prolífica numa nova categoria de estadias com lobbies festivos que estão tomando as grandes metrópoles, em que as madrugadas correm soltas à base de muitos gorós.

O hotel Freehand fica num prédio de época restaurado O hotel Freehand fica num prédio de época restaurado

O hotel Freehand fica num prédio de época restaurado (reprodução/Divulgação)

No recém-inaugurado Freehand, o bar Broken Shaker é uma boa pedida para um drinque tardio, que pode ser consumido no bar ou no salão do moderninho misto de hotel e hostel repleto de jovens universitárias do mundo todo. O bar foi eleito pelo Tales of the Cocktail como o melhor bar de hotel dos EUA.

Também recém-aberto, o Chicago Athletic Association é um dos mais bonitos hotéis da cidade – dentro de um prédio de 1890 em frente ao Millenium Park – e um dos melhores para se beber depois de um dia cheio.

Opções não faltam ali, o The Milk Room, uma espécie de whiskey bar dos tempos da Lei Seca na parte interna do hotel, é uma ótima opção: os coquetéis de Paul McGee, um dos melhores mixologistas da cidade, são muito bem executados. Há, também, a alternativa de se sentar  no Cindy’s, no terraço, onde se tem uma sensacional vista da cidade.

c9 Lado esquerdo: Shaker, um dos melhores bares de drinques em Chicago / lado direito: um drinque do The Violet Hour, bar da cidade (Imagem: Divulgação)

Lado esquerdo: Shaker, um dos melhores bares de drinques em Chicago / lado direito: um drinque do The Violet Hour, bar da cidade (Imagem: Divulgação) (/)

Mas nem só de hotéis modernos e de coquetelaria aprumada vive uma cidade que quer ser conhecida pelo hábito de beber. Só é possível considerar o respeito que uma cidade tem com a bebida quando percebe que ela mantém seus velhos balcões funcionando. O que, em Chicago, é uma realidade.

Bares de décadas de funcionamento continuam, pois, funcionando. Na vizinhança dos bairros ucranianos (há muitos descendentes do Leste Europeu na cidade), o Bar DeVille é um achado para um manhattan perfeito.

O centenário Green Mill, frequentado por Al Capone e seus capangas, é uma entidade local e vale o trajeto até o Uptown. Com apresentações de blues e jazz todas as noites, é dos programas imperdíveis – mesmo que os coquetéis não surpreendam.

No balcão, bebendo uma cerveja, uma moradora local, aprendiz de escritora e garçonete nas horas vagas, encostou e, no intervalo dos músicos, puxou assunto. Perguntei por que todos ali gostam tanto de beber.  “É um passatempo, um hobby. No verão é muito quente, bebemos pra refrescar. No inverno, bebemos para espantar o frio”, riu.

E no resto do ano?, indaguei. “Quem é que precisa de desculpa para beber? Nós, não.” Assenti com a cabeça e digeri mais aquele gole… daqueles.

Roteiro cura ressaca

Nossas dicas para você aproveitar e conhecer alguns ícones da (baixa) gastronomia de Chicago e se recuperar da ressaca

Pizza!

Pizza - Uno

 (reprodução/Divulgação)

Fina, crocante e coalhada de molho de tomate, a deep dish é um clássico original da cidade e a melhor se come na Uno (1943) – Pizzeria Uno, 29 East Ohio, unos.com.

Porco!

Porco do The Berghoff

 (reprodução/Divulgação)

Neste antigo (1898) bar alemão, o primeiro a ter licença pós-Lei Seca, dá para comer clássicos matadores da gastronomia germânica – The Berghoff, 17 West Adams, theberghoff.com

Hot Dog!

Hot Dog do Franks'n Dawgs

 (reprodução/Divulgação)

Não dá para partir de Chicago sem provar o icônico hot dog local. Toda esquina tem, mas um dos melhores é o do Franks ‘n’ Dawgs – Franks ‘n’ Dawgs, 1863 N Clybourn Ave, franksndawgs.com


Para beber ao som do blues

Chicago B.L.U.E.S. Bar: o som do local é no talo e mal dá para papear. Bons guitarristas tocam todas as noites – 2519 N Halsted St

Buddy Guy’s Legends Bar: sim, a lenda do blues é o dono. Pertinho do Blackstone Hotel, onde foram filmadas cenas de Os Intocáveis – 700 S Wabash Ave

Checkerboard Lounge: versão repaginada do célebre boteco do South Side. Cerveja gelada e grandes músicos – 5201 S. Harper Ct