O que acontece em Dubai fica em Dubai (e Vegas que se cuide)

A cidade institucionalizou o delírio e está descobrindo o prazer – e ele está bem guardado atrás dos prédios gigantes e das festas insanas

 (Reprodução/Divulgação)

Era a minha última noite em Dubai. Enquanto eu bebia um drinque cujo nome não me recordo, mas que fora enfaticamente sugerido pelo generoso barman do hotel em que fiquei pelo sabor e pela capacidade de deixar você muito feliz muito rápido, uma loira atrás da outra começou a entrar no saguão do hotel.

Lindas, russas e vestindo roupas rigorosamente marcadas no limite da lei de exposição do corpo na cidade, elas foram se aconchegando nas cadeiras, nos sofás e em cada pedaço daquele bar com o pé-direito altíssimo e decorado com centenas de garrafas coloridas de bebidas de várias partes do mundo.

Aos poucos, alguns executivos indianos e empresários árabes, elegantemente vestidos como sheiks, começaram a se oferecer não só para pagar uma bebida às moças mas também passaram logo à fase em que elas são convidadas a subir e apreciar a vista do hotel mais alto do mundo.

Logo percebi. Elas não estavam ali para se divertir ou para admirar a arquitetura do JW Marriott Marquis Hotel Dubai. Ali era trabalho, cara.

Naquelas horas da madrugada em que fiquei na­­­­quele bar, observando a chegada das mulheres que tinham como destino uma das festas instaladas em um dos andares do hotel, finalmente consegui formular algumas ideias sobre aquela cidade que tinha me deixado desnorteado e confuso nos cinco dias em que passei lá.

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Dubai é o lugar que institucionalizou o delírio, é a materialização dos sonhos de um rei do camarote do deserto.

É o jogo de videogame, real, de governantes árabes que têm uma ideia e resolvem tirá-la do papel, sem ter de prestar contas a muita gente.

E é tudo isso sendo um país muçulmano, vi­­­­­vendo a interessante tensão entre o liberalismo que acompanha o crescimento e a tradição de lugar religioso, que há pouco mais de 40 anos era apenas uma miserável vila de pescadores num lugar inóspito.

Há uma cidade da porta para dentro e outra da porta para fora. Da porta do hotel para fora, pouca coisa é permitida. Da porta para dentro, quase nada é proibido. Na rua não se vende camisinha. No hotel, ela é item básico do cardápio.

Portanto, é o cenário ideal para quem está solteiro e, ao mesmo tempo, entediado de viver sempre as mesmas coisas, dos mesmos jeitos, nos mesmos lugares – Las Vegas, Londres ou Rio.

É um cenário interessante para desfrutar de uma despedida de solteiro inesquecível, com boas doses de emoção (e tensão). E, acredite, mesmo sem prostitutas russas, é possível se divertir bastante.

Cerca de 80% da população de Dubai é formada por estrangeiros e estrangeiras, geralmente da Eu­­­­­ropa e dos EUA.

Quase sempre jovens solteiros flertando alucinadamente uns com os outros, seja nos corredores infinitos dos shoppings da cidade, nos cantos escuros do restaurante Neos, dentro do hotel The Address, no bar The Atmosphere (e sua maravilhosa vista), seja nas franquias mundiais como o Buddha Bar ou a VIP Room.

São pessoas que olham, flertam, conversam. É um mundo de gente descobrindo a vida muito longe de casa – e com muito dinheiro no bolso para financiar uma indústria (secreta) da diversão cada vez maior.

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Logo que vi as moças chegando ao hall do hotel, perguntei (por curiosidade jornalística) a um funcionário sobre, bem, o que fazer se você conhece uma moça que está em outro hotel e decide conversar com ela a sós.

O funcionário disse que ele poderia disfarçar e ignorar que um dos hóspedes estava subindo com uma não-hóspede para o quarto. Mas ele tinha uma sugestão muito melhor para um homem jovem e bem disposto.

Com os contatos certos (ou seja, na recepção do hotel), você pode alugar uma limusine-motel e levar a nova mulher da sua vida para uma viagem inesquecível pelos 150 km da rodovia que liga Dubai a Abu Dhabi.

Mas, atenção, não precisa dizer que é uma limusine-motel na recepção. Você só quer uma limusine. As pessoas sabem o que você vai fazer nela. O preço? Bem, varia muito.

Lembre-se: é um país religioso, e os prazeres da vida estão apenas sendo descobertos por lá. Não espere uma tabela bem organizada de preços e serviços ofertados. Pelo menos você não precisa mostrar passaporte na estrada.

Dubai e Abu Dhabi fazem parte do mesmo país – os Emirados Árabes Unidos, um pedaço inóspito de deserto que fez tanto dinheiro com petróleo e construção civil que pode se dar ao luxo de construir até um pequeno Central Park no meio de um amontoado de areia.

Os prazeres da vida

A divisão entre dois mundos, o público e o privado, dá a sensação de que Dubai pode ser um grande clube.

Se você conhece algumas pessoas, em pouco tempo pode fazer parte de uma rede misteriosa que te leva, por exemplo, para uma festa chamada The Secret – o segredo.

Ela não tem lugar certo para acontecer e pouca gente sabe quem serão os convidados. Geralmente acontece numa ilha – sabe-se lá em qual – com bebida liberada.

As pessoas que já participaram de algumas dessas festas contam que é uma mistura de sociedade secreta com filme de aventura e grandes doses de hedonismo.

Você não sabe para onde vai nem quem está te levando para lá – só sabe que haverá cerca de mil pessoas e que a proporção de homens e mulheres será rigorosamente a mesma.

Sim, a ideia é essa: ninguém é de ninguém na festa que ninguém sabe quem organiza. Inclusive, as suas coisas.

As mensagens enviadas pelos organizadores misteriosos recomendam que você não leve nada – porque as chances de se lembrar do que trouxe são pequenas… Inclusive, vá com pouca roupa, porque sempre voltará com menos.

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Esse ambiente de clube também existe porque a cidade gosta de ostentar – e ostentar exclusividade.

Até esta revista ir às bancas, Dubai detinha 59 recordes mundiais – in­­­­­­­­­­­­cluindo o prédio mais alto do mundo, o Burj Khalifa, e uma das diárias de hotel mais caras do planeta, vitaminadas por mordomos privativos para cada apartamento.

Mas uma das principais atrações para os homens que viajam à cidade está fora de lá: é pegar a estrada até Abu Dhabi e conhecer o parque temático da Ferrari – um sucesso absoluto entre brasileiros e italianos que visitam o país.

E então voltar para Dubai, por uma das suas estradas muito bem conservadas, que cortam o deserto, se sentindo num filme antigo, charmoso, um aventureiro do começo do século 20.

Essa sensação, aliás, é um dos poucos prazeres de Dubai que têm uma aura assim, meio vintage.

O desenvolvimento acelerado da cidade começou no final do século 20, e a ampla maioria das construções é nova, erguida por trabalho pesado (e mal remunerado) de milhares de filipinos e indianos que imigraram para lá abandonando a miséria dos seus países de origem.

E, como a gente já sabe que Dubai é a cidade que instituiu o delírio, o brasileiro que encara as 14 horas de avião até lá será testemunha das construções mais extravagantes já erguidas pelo homem e verá, de perto, algumas ideias absurdas colocadas no papel – como usar Lamborghini como carro de polícia. É um paraíso para o seu Instagram.

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Dubai se tornou famosa por ter tudo no superlativo e por se mirar, sempre, em exemplos faraônicos e réplicas de monumentos à grandiosidade.

Estátuas egípcias em lojas, por exemplo, são comuns. Há uma torre que imita o Big Ben, de Londres, e um resort, o Atlantis, livremente inspirado nas supostas construções da mítica civilização submersa.

Como se não bastasse ter um minimundo dentro de si, Du­­­­­bai construiu um conjunto de ilhas artificiais que, vistas do alto, imitam o mapa do planeta.

Essa profusão de obras de gosto duvidoso vem sempre acompanhada de um número grandioso.

A cidade abriga o maior shopping do mundo e, dentro dele, há um aquário, uma reprodução das famosas Galerias Lafayette, de Paris, e corredores que se parecem com passarela de mo­­­­­­­delo. Afinal, não basta comprar.

É preciso se sentir superstar logo depois de tomar um expresso no Café Armani enquanto uma garçonete belga pergunta, delicadamente, quais são seus planos para aquela noite de sexta-feira.

Em outro shopping, uma estação de esqui digna dos alpes suíços é a atração principal.

Ao lado do maior prédio do mundo, as fontes dançantes servem de ce­­­­­nário para fotos maravilhosas, onde casais recém-formados trocam juras de amor verdadeiro, amor eterno.

E sempre tem mais: a cidade construiu um se­­­­­­gundo aeroporto que é 4 km maior do que a cidade do Recife. Veja, não é o aeroporto do Recife. É um aeroporto maior do que a capital de Pernambuco.

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No dia a dia, os superlativos também estão presentes, batendo cartão. No hotel em que me hospedei, o café da manhã tem cerca de dez cozinhas diferentes, incluindo desjejuns japoneses, indianos, americanos, ingleses, franceses, italianos e árabes.

E, claro, isso afeta a forma como os cidadãos do país se comportam. Tudo é sempre feito em grandes quantidades. Nos bares, é permitido fumar cigarros e a shisha, o narguilé árabe. E sempre tem muita fumaça.

Para surpresa das pessoas que estão acostumadas a imaginar muçulmanos estritamente obedientes às leis do Alcorão, é bem fácil encontrar homens vestidos como sheiks entornando uma sequência interminável de cervejas e drinques nos bares mais badalados da cidade.

Amigos que já estiveram no lugar me contaram como, em algumas festas muito exclusivas, há piscinas de champanhe onde os sheiks, seus amigos e suas namoradas nadam até abandonar completamente a noção de tempo.

Afinal, a graça é beber a água da piscina…

Alguns cuidados

O viajante que vai a Dubai experimentar a #vidaloka dentro dos hotéis e das baladas da cidade precisa ter uma coisa na cabeça, o tempo todo, especialmente quando estiver fora da bolha dos hotéis e bares fechados.

Por mais liberal que seja o mundo da porta para dentro, do lado de fora Dubai continua sendo um país muçulmano. E o problema não é exatamente ser muçulma­­­­­­no, mas o fato de que religião, política e polícia se confundem, o tempo inteiro.

Portanto, nunca tire fotos de alguém que estiver vestido como um cidadão do mundo árabe – sobretudo mulheres.

Isso é altamente ofensivo e pode render muitos problemas – de multa a prisão. Também não tire fotos dos prédios do governo nem de policiais ou militares. É proibido.

Evite ficar dando beijos e abraços na rua. Lembre-se que a boa vida está do hotel para dentro. Algum policial pode encrencar, e não faz sentido viajar para aguentar uma chateação desse tamanho.

E, claro, isso se estende a uma transa rapidinha na praia. Não faça, mesmo que você ache que ninguém está vendo. Caso alguém testemunhe a sua diversão, você pode ir parar na cadeia e, para sair do país, talvez seja obrigado a casar com a moça.

Na piscina do hotel ou nas praias, públicas e privadas, roupas curtas são bem aceitas. Porém, na cidade, evite. Sair sem ca­­­­­­misa pelas ruas de Dubai pode render multa (apesar do calor).

Não é preciso ficar tenso na cidade, que fique claro. Basta usar o bom senso. Afinal, um lugar que está descobrindo o prazer ainda tem vá­­­­­rias questões a resolver consigo mesmo. Quem nunca, afinal?